Pobres seres perdidos na escuridão das paixões; pobres seres que tomais por luz verdadeira o ouropel fascinador das coisas falsas da Terra!

(Pietro Ubaldi, Grandes Mensagens)

Eu leio e releio sentindo uma profunda angustia no fundo do meu peito por sentir a imensa verdade destas palavras. Sinto que sou arrastada pelos desígnios da matéria e estes laços poderosos moldam meus mais caros desejos.
Quanto mais olho para mim e para o mundo, mais eu sinto que os desejos do eu são mais fortes que o amor pelo coletivo. É mais fácil trabalhar pelo lucro e pela conquista dos bens materiais ( casa, independência financeira, festas, cinema, shows, roupas bonitas, inutilidades para o lar, comidas saborosas…) Assim o trabalho se volta para o ter e nunca é o fim em si mesmo. Mas quando penso nos seres celestes, nos espíritos mais puros eles me parecem irreais por não estarem acorrentados a esses desejos. É muito para o meu intelecto moldado pelas limitações da matéria conceber algo que não possui limitação. Meu espirito anseia por esse estado puro, mas não o compreende.
Quando penso no que seria uma existência de espíritos puros eu imagino início do Silmarillion de J.R.R. Tolkien quando dodos os espíritos nascem da canção divina como notas cada uma com seu comprimento e amplitude, todas em um mesmo sistema harmônico e criador. Cada nota em seu lugar e ainda sim em movimento, cooperando com as demais. Um encadeamento perfeito. No entanto algumas destas notas perfeitas não se contentam com o movimento desejando criar uma canção por si mesmas.
Ao causar dissonância o criador, perfeito, onisciente que já previa a queda de suas crianças converte essa dissonância em novos acordes dos quais é criado o mundo material.
Os seres orgulhosos se apegam a ele o moldado segundo a sua vontade. Criam moradas, ilhas, vales, montanhas, abismos, estrelas, sóis, luas, plantas segundos seu gosto. Moldam sociedades segundo afinidades, mas sempre guiados pelo eu. Arrastados por desejos egoístas muitas vezes ferem os desígnios e leis que eles mesmos criaram para esta existência material ferindo a irmandade que os unia e atraindo para si e companheiros afins tragédias sem fim.
Alguns destes seres orgulhosos e cheios de desejos do “eu” remodelam a matéria deteriorando o que foi criado, deturpando para seu prazer, ganancia, etc… como se a matéria em sua forma mais densa e escura os fascinasse, destruindo o que foi moldado por seus irmãos e apagando o que possa emitir luz.
Nasceriam aí as mães de todas as nossas guerras dentro das quais amos lados se fecham mais e mais no ciclo da matéria. O conhecimento e o poder de criação foge de suas memórias, a imortalidade do espirito é substituída pela mortalidade do corpo. O corpo sendo uma roupagem transitória tende a desgastar-se e perecer para libertar o espirito, no entanto o espirito tendo perdido suas memórias e consciência da própria imortalidade apega-se a matéria como unica realidade possível e teme o fim de seu tempo nela, pois é também o fim dos prazeres físicos.
Não me parece ser por acaso que todas as mitologias falem de uma época antes do mundo tangível quando todos os seres eram divinos e onipotentes, e que estes seres tenham lutado entre si cheios de inveja, orgulho, arrogância etc e que o fim dessa guerra tenha resultado no nosso mundo. É como se nossa consciência por meio de alegorias tentasse relembrar a própria queda.

Anúncios