Ser mulher – feminilidade perdida.

Escrever não é difícil. É apenas juntar uma letra após a outra até formar palavras e depois enfileirá-las uma após a outra em frases, e depois colar frases depois de frases. Tudo muito mecânico, organizado e vazio. O difícil e tocar em assuntos importantes seja para nós ou para os outros. Difícil é assumir aquilo que nos incomoda. Mais fácil é aceitar rótulos e entrar nas formas sociais. Para nós mulheres a sociedade impõe duas formas principais – a mulher vulgar e a mulher séria – sem meio termo entre elas. A mulher vulgar mostra peito e bunda, às vezes malha como uma louca para ter coxão, ou arruma um patrocinador para lipo e silicone. A mulher séria não dá atenção a estas coisas, se veste de forma “decente”, não expõe demais o corpo, trabalha para não depender do homem etc. A mulher vulgar é fácil, passa de mão em mão e a séria é mulher para casar…
São tantos os rótulos que nós, mulheres reais nos perdemos em busca de uma identidade. No fim das contas o que é ser mulher? O que se pode ou não fazer e sentir? É por causa dessa maldita dúvida que vejo tantas mulheres abraçadas com livros pornôs masoquistas como 50 tons de cinza. A falsa idéia de liberdade encontrada nesse tipo de literatura remonta romances aguados que minha mãe comprava nas bancas de revista romances de “Julia” e “Sabrina”. No fim a temática é a mesma, mulheres frustradas com a própria vida que se deixam definir em função do homem “amado”.
Hoje olhando para o espelho estava pensando nisso. Quantas vezes me deixei definir em função dos outros. Quantas vezes permiti que as imposições do olhar do outro escolhesse minha roupa, meu cabelo, minha forma de sentar e andar? E você caro leitor?
Viver em função da voz do outro, do olhar do outro é cansativo, mina nossas forças porque apaga nossa voz interior, nosso senso de vontade e prazer. Em um mundo em definido pelos padrões de beleza e comportamento ditados por uma mídia sexista nos descobrindo achando que queremos coisas que em nada se parecem conosco e escondendo de nós mesmos nossas vontades. Foi com este pensamento em mente que abri o meu armário. Quanta insatisfação em ver que de certo modo quase nada se parecia comigo. Pouco a pouco fui depondo calças, saias, vestidos e olhando um por um. Por que comprei esta calça social? Onde eu usaria aquela saia? Por que as longas estão por cima das curtas. Eu não sabia que me cobria tanto. Cobria-me tanto que me esqueci que tinha pernas. Pernas longas, coxas e quadris proporcionais, um tornozelo até agradável de ver em um salto. Quando foi que me esqueci dos meus quadris? Por isso os saltos estavam no fundo do armário. Eu que cresci sobre eles mal conseguia me apoiar sobre um sem perder o equilíbrio. Foi porque esqueci meus quadris. Comecei a andar dura como se fosse um homem. Será porque me entreguei as calças compridas?
Olhando para tantas calças no meu armário me lembrei que até os vinte e poucos anos eu as detestava. Na adolescência usei jeans não porque gostasse, mas porque a escola obrigava. Fora das paredes encarceradoras eu amava saias. Saias curtas e esvoaçantes e nem me importava tanto assim com compostura. Era mais feminina. Não pelas saias curtas, mas por me sentir mais eu, mais a vontade e mais livre. Andava com passos firmes e não perdia tanto tempo olhando para os meus pés. Naqueles dias eu não sabia que rebolava quando andava. Então disseram que mulher que rebola demais é vulgar. Quando? Quando me convenceram de que não tinha pernas? Talvez. O fato é que perdi meu ritmo. Meu balanço e conseqüentemente meu equilíbrio.
Como toda mulher eu ansiava por um companheiro. Sonhava não com o príncipe do conto de fadas, mas com o homem descrito por Olavo Bilac:

Dualismo
Não és bom, nem és mau: és triste e humano…
Vives ansiando, em maldições e preces,
Como se, a arder, no coração tivesses
O tumulto e o clamor de um largo oceano.

Pobre, no bem como no mal, padeces;
E, rolando num vórtice vesano,
Oscilas entre a crença e o desengano,
Entre esperanças e desinteresses.

Capaz de horrores e de ações sublimes,
Não ficas das virtudes satisfeito,
Nem te arrependes, infeliz, dos crimes:

E, no perpétuo ideal que te devora,
Residem juntamente no teu peito
Um demônio que ruge e um deus que chora.

Olavo Bilac

Desde muito cedo a poesia se entranhou em mim como parte integrante do modo como ver e descrever o mundo.
Como dizia, sonhava um companheiro. Mas me ensinaram que sonhar demais nos faz esquecer-se da realidade e que só mulheres carentes e submissas desejavam ardentemente por alguém. Mulheres contemporâneas devem se bastar por si. Que a sexual ide é ruim. Que apenas mulheres vulgares ansiavam por sexo. E assim me esqueci que era fêmea. E que ser fêmea era parte integrante da minha personalidade. Enterrei no fundo de mim todas as reminiscências dos meus desejos e segui em frente, andando dura como uma taba, olhos no chão para não tropeçar, gentilezas mil para agradar as pessoas. Sim era preciso ser boa. Ser uma boa pessoa é sorrir ser sempre pronta e prestativa e nunca se endurecer.
Afoguei-me em estereótipos tentado escapar deles, então veio a solidão. Com a solidão o medo do mundo. Por que pessoas solitárias e carentes são presas fáceis. Conheci relacionamentos sem amor, e achei que amava. Achei que era dona de mim e que conhecia meu corpo.
Não podia estar mais enganada. Como poderia ser dona de mim se eu nem mesmo sabia quem era e quais os desejos da minha alma. Então um dia solidão gritou no fundo de mim e agrediu minha vida presente. Minha alma queria ser ouvida, estava cansada de ser sublimada. Meu corpo queria se fazer ouvir estava cansado de ser ignorado.
A solidão e a tristeza nos fazem olhar para nós mesmos, mas o medo distorce este olhar e nos faz não gostar de quem somos, mesmo sem nos conhecermos de verdade. Quantas pessoas eu conheci na minha vida que não gostavam de si mesmas e encontravam meios mil de se maltratar e se ferir direta e indiretamente. Eu não queria mais ser uma dessas pessoas.
Estava cansada de me ver entre rótulos vazios. Uma mulher não precisa ser uma coisa ou outra. Ela precisa ser consciente de que é um ser vivente. Um ser espiritual que anseia ser amada. Toda mulher deseja ser amada. Não há exceção a regra. Mas para ser amada é preciso se amar primeiro. Saber que além de um ser espiritual com aspirações é também de carne e osso e carne tem desejos. Sentir desejo não é feio nem é pecado. Se queimar de hesitação com ou sem motivo é natural.
Gostar de si mesmo é a meu ver encontrar o justo equilíbrio entre corpo e espírito. É conversar consigo mesmo para entender não os desejos superficiais que absorvemos dos outros, da sociedade, das mídias, mas entender nossos próprios desejos e estar em paz com eles
Quando não estamos em paz conosco mesmo nos agarramos a qualquer coisa que pareça inovadora ou transgressora, mas sem nunca sair da nossa zona de conforto. Talvez por isso tantas pessoas andem por aí abraçadas com 50 tons de cinza. Porque não se gostam como estão agora. Mas não sabem transgredir além dos rótulos. Uma literatura barata oferece uma catarse rápida e depois de uma breve polêmica pode logo ser esquecida. Suprimida pela próxima moda. Não foi assim com Código da Vinci?

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