Bom dia caros Leitores!

Espero que tenham tido um bom fim de semana, sei que não posso reclamar do meu 🙂

Bom, como eu disse semana passada estou fazendo um curso de prevenção as drogas para educadores. Quanto mais eu leio o material mais quero falar sobre ele, seja linguisticamente ou socioculturalmente. Para não me perder em divagações vou tentar trabalhar um tópico de cada vez, não necessariamente na ordem que estou lendo os textos.

Hoje quero falar da “Política Nacional sobre o Álcool” – enquanto eu atuava em sala de aula muito se falava sobre a lei seca, trazíamos reportagens e debatíamos o tema nas aulas de redação e mesmo alguns livros didáticos tratavam do tema em coletâneas e pequenos contos, mas nunca tinha sido apresentada ao tema com profundidade. Então ao me deparar com o texto 4 do curso fiquei bastante feliz.

Primeiro fato que eu não sabia.

A Política Nacional sobre o Álcool resultou de um longo processo de discussão. Em julho de 2005, o então Conselho Nacional Antidrogas, ciente dos graves problemas inerentes ao consumo prejudicial de álcool, e com o objetivo de ampliar o espaço de participação social para a discussão de tão importante tema, instalou a Câmara Especial de Políticas Públicas sobre o Álcool (CEPPA), composta por diferentes órgãos governamentais, especialistas, legisladores e representantes da sociedade civil. A Câmara Especial iniciou suas
atividades a partir dos resultados do Grupo Técnico Interministerial criado no Ministério da Saúde, em 2003.

Em 2003 eu estava no Campus II da UFG me digladiando com a disciplina politicas educacionais tentando conciliar a visão utópica da universidade com relação a educação e a realidade de sala de aula. Naquela época eu não tinha certeza se queria mesmo ser professora e meu coração batia pelas aulas relativas ao bacharelado em literatura. Não que eu quisesse fugir da luta, mas sentia que as salas de aula dos ensino fundamental e médio não eram lugares abertos a debates para problemas reais, e que o modo como tentávamos conciliar as teorias e praticas de Paulo Freire e Libânio com o conteudismo criava uma série de espaços vazios entre os alunos e o professor.

Me assusta que tanta gente que não tem o menor conhecimento de didática – bacharéis em direito, farmacêuticos, estudantes de administração achem que podem dar aulas quando a relação professor/aluno a meu ver a bastante complexa. Ensinar não é apenas entrar na sala e despejar conteúdo. Há uma série de nuances que vão da forma de lidar com o conteúdo em si até a forma como cada tipo de aluno aprende.

Quando penso em um projeto de prevenção as drogas não consigo pensar em um projeto que seja desvinculado a minha área de atuação que é o ensino de línguas. Acredito que a aula de Língua portuguesa  seja o espaço para o jovem/adolescente aprender a se expressar de forma coesa, coerente e crítica e que as aulas de redação são os melhores lugares para um debate sobre temas atuais ligados a realidade socioeconômica e mesmo política.

Vejo que no ambiente escolar essa potencialidade da língua é ignorada tanto pela incapacidade dos profissionais em conciliar as novas e velhas metodologias bem como pelo fato de o professor hoje ter perdido seu status de autoridade – no sentido de ter direto de exigir do aluno responsabilidade e feedback.

Uma aula de leitura e produção de texto depende de dois fatores principais interesse e leitura. Duas coisas que embora fundamentais são negligenciadas. Quando pedimos para o aluno adolescente ler algo que tenha mais de 140 caracteres ele morre de preguiça, quando passamos uma leitura para casa ele simplesmente não faz. A leitura não pode nem deve ficar restrita em sala de aula. Deve fazer parte da vida.

O melhor modo de começar a mudar a realidade ( a meu ver) é levar para a sala de aula textos atuais, jornais e revistas bem como a interação por meio das redes sociais. Para um aluno se sentir a vontade para falar de um tema ele precisa ter conhecimento sobre ele. Se nossa intenção é culminar em um projeto de prevenção as drogas é preciso primeiro semear. Fazemos isso com textos literários e jornalísticos sobre o tema. Tirar as carteiras da disposição normal fazendo um ou mais círculos é bem interessante, pois rompe o com o modelo tradicional e permite que os adolescentes se organizem de acordo com suas afinidades. para um primeiro memento de atividade não tem problema permitir que os alunos escolham seus parceiros em grupos de até 4, desde que sejam observados os casos em que um ou mais elementos do grupo de fato não trabalham. Cada grupo recebe um texto para ler. Um texto pequeno para a leitura em 10 minutos. Passado o tempo abre-se para que cada grupo por meio do representante escolhido leia seu texto em voz alta de dê uma opinião sobre ele.

Pode parecer estranho ninguém escrever, sendo que esta seria uma aula de redação. Mas, para jovens de alfabetização deficiente a palavra escrita é sempre intimidadora em especial quando ele não pode usar os caracteres simplificados do discurso digital ou os mecanismos de correção do celular. Então para extrair uma redação que seja realmente filha das concepções de mundo do aluno é preciso primeiro situar este aluno, ajuda-lo a descobrir/construir suas concepções sobre o assunto.

Quantas vezes esbarramos na dificuldade do nosso aluno responder questões subjetivas – aquelas que não tem certo ou errado, mas que precisa que ele expresse opinião própria – São muitos os que deixam em branco, intimidados pela possibilidade de pensar por si só – é mais fácil decorar.

Mas quando o jovem se expressa oralmente sobre o assunto e é encorajado a se aprofundar no tema a partir de suas próprias impressões o resultado é bem diferente. Quando é permitido que ele traga para a sala um vídeo do youtube – que ele encontrou sobre o tema – ou uma música, ou mesmo uma imagem do facebook as coisas mudam.

Usar as redes sociais para manter contato fora da sala de aula é uma ótima ferramenta, mas também uma faca de dois gumes pois exige do educador uma maturidade tecnológica que muitos não tem. Vejo professores universitários terem muito mais exito em usar estas ferramentas que os professores de redes estaduais e municipais que parecem ainda ter receio das tecnologias ou preconceito quanto ao seu uso na escola.

Bom, retornando ao nosso tema inicial, a desinformação da classe educadora é um entrave no aprofundar determinados temas com os alunos, no caso dA Política Nacional sobre o Álcool o tema oferece uma quantidade gigantesca de vídeos e propagandas, muitos deles com viés humorístico que chamam a atenção do aluno. Basta cinco minutos na frente do computador para encontrar diversas imagens abordando o tema de pontos de vista diferente – álcool e direção, álcool e família, alcool e violência… A partir da construção de conceitos o aluno passa a sentir-se mais a vontade para escrever e por meio da escrita passamos a conhecer melhor a realidade no nosso aluno. Quantos textos autobiográficos aparecem com histórias de violência e/ou superação quando começamos a corrigir tais redações. São estes os momentos em que o aluno se solta e muitas vezes desabafa sobre o pai alcoólatra, ou a mãe viciada ou nos apresentando uma família de valores coesos com relação ao tema. Alunos que – apesar da menor idade- fazem uso do álcool podem começar a repensar o problema do que é beber socialmente, beber por auto-afirmação, beber por vicio… o leque de possibilidades é gigantesco, mas para que ele se abra é preciso penetrar a carapaça da preguiça e do desinteresse e ter o respaldo da escola para exigir mais do que a leitura de sala de aula. Algo que a rede publica ainda precisa aprender com a particular, 50% do que é aprendido e desenvolvido como competências e habilidades é trabalhando em sala de aula e outros 50% vem do trabalho em casa, do compromisso do aluno consigo mesmo. O professor não é um mágico que vai abrir a cabeça do aluno com um pé de cabra e inserir o conteúdo lá dentro, ele é um mediador entre conceitos abstratos e as mentes em desenvolvimento que ainda não são capazes de compreender o abstrato sozinhos. Ele apresenta as ferramentas e mostra o caminho, mas o aprendizado é responsabilidade do aluno.

Anúncios