Bom diaa!

Já faz tempo que não venho falar do curso que estou fazendo – prevenção ao uso de drogas. Por excesso de trabalho andei com algumas atividades atrasadas, mas finalmente consegui atualizar algumas leituras e uma das que mais gostei foi a unidade 13 pois ela toca em algo que acredito profundamente. “O protagonismo do adolescente ou dos grupos de adolescentes”

Acredito que muitos dos nossos problemas sociais, não só o uso de drogas está na falta da sensação de pertencimento a comunidade. Vivemos desagregados dos nossos semelhantes, não nos sentimos parte da nossa escola, da nossa rua, o nosso bairro  e se não sentimos que pertencemos ao nosso lugar de origem como vamos nos sentir cidadãos de um país imenso ou ter responsabilidade eleitoral?

O afastamento dos nossos semelhantes nos deixa em situação de vulnerabilidade social, emocional e política.

O texto começa com o obvio:

A adolescência, por ser uma etapa do ciclo de vida marcada por profundas transformações psíquicas, físicas, sociais, culturais e relacionais, é o período em que o potencial criativo do indivíduo está no seu ápice.

Todo mundo já ouviu isso, já leu isso e está cansado de saber a ponto de recitar estas ideias sem nem mesmo pensar, no entanto saber e aproveitar este conhecimento de forma construtiva são coisas muito diferentes.

Saber que o céu é azul aos nossos olhos é um fato comum e corriqueiro. Quem negaria isso? No entanto contamos nos dedos quem pegou esta ideia e transformou em arte ou ciência contribuindo para a comunidade de alguma forma. o mesmo vale para o conhecimento de que a adolescência é uma fase de transformações físicas, sociais e emocionais.

wpid-img_33260250018185.jpegO potencial criativo do adolescente oferece a ele:

  • ƒ liberdade para explorar;
  • ƒ liberdade para ser o que é;
  • ƒ meios para buscar sua autonomia;
  • ƒ meios para pôr à prova suas capacidades;
  • ƒ possibilidade de fazer escolhas;
  • ƒ possibilidade de cometer erros.

Quantos de nós estão dispostos a valorizar isso? A liberdade de explorar coloca em chegue a nossa autoridade como adultos, a liberdade para ser permite que ele questione a tudo e todos inclusive a si mesmo, a liberdade de buscar autonomia implica na descoberta do próprio valor, por a prova as suas capacidades é muitas vezes desafiar os limites impostos, fazer escolhas e cometer erros é a prova de que já é capaz de lidar com as consequências de seus atos.

Quem de nós está preparado para lidar com isso sem podar o adolescente, sem se desesperar quando ele se depara com encruzilhadas e faz a escolha ruim????Quem de nós tem a fórmula para passar por essa transição pacificamente?

Por isso as drogas são tão tentadoras para eles. Porque ela parece o caminho fácil para explorar tudo isso de uma vez só. Porque para muitos é a prova da própria autonomia, do desafio ao autoritarismo, a fuga das dificuldades em se integrar, de fazer parte de algo.

O quanto é difícil para nós não podar o potencial de um adolescente quando ele se mostra mais inquieto e ativo que os outros? Quando ele não atende aso nossos padrões de comportamento? Quando ele desafia a nossa autoridade?

O adolescente necessita organizar sua originalidade, sua criatividade e, ao mesmo tempo, estar seguro de que ela é compartilhada. Por isso, na adolescência, os grupos são fundamentais.

wpid-wp-1395073489871.jpegEntão os grupos influenciam a identidade do adolescente? 

Com toda certeza sim. A necessidade de pertencer a algo é inerente do ser humano. Não nascemos para a existência solitária e isolada. No entanto nossa sociedade falha em fomentar lugares para que estes grupos sejam integrantes da comunidade nas quais nasceram. A escola que é o primeiro local de acesso dos grupos de adolescentes precisa começar a reconhecer a necessidade de integração que dá origem a eles e canalizar sua potencia criativa para a comunidade.

Não podemos ter jovens desconectados da realidade imediata da rua ou do bairro em que vivem.

A relação com os pares assume uma centralidade forte na vida do adolescente. O grupo propicia-lhe uma nova identidade intermediária entre a família e a sociedade, o que torna, para ele, possível a criação de espaços de pertencimento, com regras e hierarquias, com seu valor de iniciação e possibilidade de estimular a sua autonomia. Constitui ponto de referência e uma vertente socializadora para ele.

O grupo é uma etapa fundamental para a transição para a vida adulta. É a partir da vivencia com os grupos x escola que se molda também a identidade e a postura profissional. O valor que ele vai dar para o que é produzido pelo seu esforço, por sua própria capacidade criativa. A valorização do que ele produz individualmente está sempre em conflito com as necessidades do grupo a que pertence. Por tanto se o grupo for um grupo agregador, de relações saudáveis ele vai estimular as qualidades positivas do indivíduo e o propiciar experiencias construtivas, mas se em função da própria vulnerabilidade ele integrar um grupo de relações autoritárias ou narcisistas o reforço será negativo anulando a individualidade saudável e reforçando a dependência do grupo ou do líder da matilha.

 

No grupo de pares, os adolescentes adotam e designam novos papéis sociais uns aos outros, manifestam o desejo de se expressarem, de se relacionarem, de estarem em contato com o outro, e atribuem muito valor às suas qualidades e competências, aos seus sentimentos, à possibilidade de se comunicarem.
No processo de autopercepção, são capazes de refletir sobre a responsabilidade que têm na construção dos seus relacionamentos e de sua vida.

Para facilitar a compreensão dos tipos de relação que se formam entre os pares e sua implicação na circulação
do adolescente por contextos de risco e/ou de proteção, denominamos como:
grupos potenciais ou grupos construtivos – aqueles grupos de pares que levam o adolescente ao protagonismo juvenil e que podem ser considerados grupos de proteção;
grupos potenciais interrompidos – grupos potenciais que presentam dificuldades no processo de construção do protagonismo, impossibilitam sua efetivação e podem levá-los a contextos de risco;
grupos destrutivos – aqueles que internalizam a cultura da violência e da destruição como forma de ação, como as “gangues”, os “grupos de pichação”, os “grupos do tráfico”, o que os caracterizam com
os grupos de risco.

Uma proposta bem interessante é o chamado “grupo potencial”

O que seria isso? Segundo o texto seria:

Quando é inserido em contextos que lhe asseguram certa proteção, o adolescente tem a possibilidade de formar e manter relações entre os pares que lhe permitem desenvolver seu potencial criativo. Neste processo, ele é capaz de transformar relações em grupos potenciais a partir do exercício do protagonismo juvenil.

 

Ao falar do protagonismo juvenil considera-se o potencial criativo e de trabalho do jovem para promover mudanças na própria comunidade.

Claro que tais mudanças não ocorrem do dia para a noite, e pensar que isto seria fácil ou imediato é no mínimo utópico. Mas já há caminhos para a criação de grupos potencias como por exemplo oficinas de dança, teatro, bandas, bandas marciais, capoeira… desenvolver estas atividades dentro da escola e promover espaço para que o jovem mostre o resultado do seu trabalho é o primeiro passo.

Meia duzia de alunos que dançam se apresentando para a comunidade 2 a 3 vezes no ano trabalhando temas como drogas, gravidez, aborto, exploração sexual são jovens que trabalharam e pesquisaram, que refletiram sobre o assuno e envolveram seus amigos e família no projeto. Jovens que fazem capoeira e mostram seu resultado para a comunidade em apresentações são jovens que não estão na rua e que não tem tempo para as drogas pois seu grupo tem valores que superam a vulnerabilidade. Os próprios ideais da capoeira, o pertencimento a um grupo valorizado os ajuda a proteger a si mesmo das tentações lá fora.

A criação de um jornal que realmente circule não só na escola, mas na comunidade de pais informando os eventos importantes para alunos e mesmo administração da escola é um reforço ao pensamento individual e a preocupação coletiva. Quantas escolas apresentam o projeto de jornal ou rádio, mas não saem do básico. Eu penso mais além, e em como seria um espaço do adolescente realmente escrever, uma vez por semana ou a cada 15 dias temas que interessem ao seus diferentes grupos. Penso em como seria um professor ser de fato responsável por corrigir os textos e auxiliar na formatação e distribuição do material na unidade e mesmo nos estabelecimentos próximos. – Utópico, mas interessante.

A força do protagonismo juvenil emerge da iniciativa do próprio adolescente, da expressão de liberdade e de um compromisso social. A ação é produto de uma decisão consciente, e o próprio adolescente assume responsabilidade por seus atos. O protagonismo juvenil é a expressão criativa e responsável do potencial do adolescente (por isso o nome “grupo potencial”). Relaciona-se com a preparação para a cidadania e cria condições para que o adolescente possa exercitar de forma crítica e espontânea o pensamento, a palavra e a ação na construção gradativa de sua autonomia.

 

 

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