Resgatando a autoridade na família e na escola

Estamos no fim do ano, escolas em recesso, todo mundo pensando nas festas de natal e eu na contra mão falando justamente de escola.

Natal é conhecida como a data mais familiar do ano, pois é nesta época que muitas famílias tentam esquecer as diferenças nem que seja para trocar presente…

Acredito que o primeiro pilar de uma sociedade seja a família. Para mim a família saudável nem sempre é aquela tradicional com “Papai, mamãe e filhinhos” mas aquela que mesmo com as dificuldades e adversidades do caminho, que apesar de terem uma “mãe solteira” ou que tenha passado por um divorcio ou que seja um casal do mesmo sexo que adote uma criança – que apesar de todas estas dificuldades é família.

Temos a tendência de achar que uma família feliz tem filhos lindos e disciplinados, como se tudo se encaixasse dentro de uma mesma forma, mas vivemos em uma sociedade heterogênea em que a noção de felicidade não é única, e que a velocidade da informação tem transformado radicalmente as relações sociais e familiares.

Diante de um quadro tão amplo não há de se esperar a mesma resposta disciplinar de um século atrás, nem de 15 anos atrás. É preciso descobrir novas formas de educar e novas formas de ver a “disciplina”

A palavra disciplina tem como raiz etimológica a palavra discípulo, que se refere ao iniciado em uma arte ou conhecimento por um mestre a cuja autoridade ele se submete. Essa palavra, no entanto, possui várias interpretações.

 

Hoje em dia nosso aluno sente-se em alguma medida discípulo de seus professores? 

Sinto dizer mas a resposta é não. O professor perdeu seu status na sociedade e não é um modelo a ser seguido ou admirado ou imagealmejado. Isso se reflete em certa medida no comportamento do adolescente, pois ele busca espelhos em que se mirar, figuras em que se espelhar e admirar. Se a sociedade nega isso ao professor ela cria um obstáculo a mais na relação.

Não estou pregando a submissão arcaica do discípulo ao mestre, mas a valorização de uma relação de autoridade e confiança na qual o jovem possa ver socialmente no professor uma figura a ser admirada. Afinal, quando admiramos profissional e socialmente alguém há uma tendência natural ao respeito e mesmo ao desejo de repetir/perpetuar no nosso comportamento aquilo que admiramos. O status do professor não é algo decorativo, nem uma ode a vaidade profissional.

Ainda falando em disciplina – agora em um contexto menos metafisico – ela também engloba a relação comportamental que permite o bom andamento da aula, ou seja o respeito as normas de conduta entre professor-aluno e entre aluno-aluno. Neste sentido:

A indisciplina, em certa medida, pode ser uma maneira de a criança e de o jovem informarem que algo não vai bem. Nesse sentido,
seria um sintoma cujas causas podem estar localizadas na esfera pessoal, familiar, escolar ou comunitária. A indisciplina expressa pela transgressão ou simulação de desconhecimento das normas pode ser uma reação a uma forma de disciplina rígida.

A indisciplina é muito mais do que um comportamento reprovável em determinada situação, é um sintoma de que há algo errado ou no modelo que faz o adolescente sentir-se oprimido ou de que ele fora da escola possa estar em situação de vulnerabilidade.

Como saber se a indisciplina é sintoma de um problema muito mais grave? 

Muitas vezes, os motivos que levam um aluno a apresentar um comportamento inadequado na escola extrapolam a dimensão pessoal e estão associados a situações mais amplas:

  • ƒ questões de saúde: neurológicos, déficit de atenção;
  • problemas familiares: por exemplo, violência dentro de casa;
  • dificuldades relacionais: professores e colegas.
    Cabe também atentar para fatores do próprio ambiente escolar que contribuem para a indisciplina:
  • salas muito barulhentas, quentes e mal ventiladas, ou salas escuras com acomodação insuficiente e inadequada.

Não como o professor sozinho detectar todos os problemas possíveis, as a associação entre professor, gestão da escola e FAMÍLIA permite que sejam detectados problemas como afasia, déficit de atenção, dislexia bem como cobrar das autoridades cabíveis um ambiente sempre salutar e adequado.

A sociedade atual abriga muitas contradições e os pais não conseguem dar aos filhos o que a sociedade de consumo valoriza. Além disso, eles convivem com processos perversos e contraditórios como a erotização na infância e a infantilização dos adultos. Pais e filhos ficam vulneráveis das crises sociais e econômicas: urbanização, mobilidade geográfica, desemprego, anonimato das relações dentro de uma sociedade fragmentada, perda do prestígio e das fontes de socialização normativas: a família, a escola, a
justiça e a igreja. Essas transformações nas estruturas criam no adolescente uma dificuldade de se
fixar sobre um futuro incerto.
O modelo de família em que o pai é o mantenedor, a mãe cuida da harmonia da casa e os filhos são obedientes
aos pais, já não corresponde à realidade.

A realidade se tornou muito heterogênea e com isso aumentou sim a necessidade da família participar ativamente da vida escolar do filho e isto não se resume a conferir as notas e participar dos conselhos, mas valorizar o que o filho produz, participar da aquisição de conhecimento, compartilhar de atividades extras – como o incentivo a grupos tais como teatro ou capoeira. Um pai ou uma mãe que valorizam o que o filho faz dentro e fora do ensino conteudista tem um canal de comunicação muito mais aberto  de modo a estar mais sensível a mudanças de comportamento que possam apresentar situações de vulnerabilidade ao consumo de drogas.

O resgate da autoridade da família não é o resgate da hierarquia na qual os pais mandam e os filhos obedecem sem questionar, pois isso não é possível na era da informação. O resgate da autoridade da família é o resgate dos valores de respeito e comunicação. O respeito leva a obediência com muito mais facilidade que o medo ou o autoritarismo, e muitos pais começam a perder seus filhos por mera falta de comunicação.

Um adolescente que tem medo dos pais não vai contar que lhe ofereceram maconha no caminho de casa ou que experimentou bebida alcoólica com um colega, mas um adolescente que tem respeito pelos pais vai pensar duas vezes antes de aceitar e muitas vezes vai conversar com os pais sobre o ocorrido com certo orgulho da própria decisão.

Jovens querem ser amados e valorizados, e muitas vezes aquele aplauso na apresentação da escola, o parabéns pela melhora em uma nota valem mais do que imaginamos.

A escola é também o local dos pais socializarem suas duvidas na criação dos filhos, de dividir com outros pais informações. Se a escola não se abrir também para que a família encontre acolhida a escola se torna estéril. Focamos muito nos projetos envolvendo os alunos, mas nesta discussão sobre prevenção ao uso de drogas deve haver um espaço também para os pais.

Quantos projetos foram pensados para eles. Cobramos sua participação ativa, mas não temos um espaço destinado a esta participação. Nas nossas famílias tão heterogêneas faz-se necessário que haja um espaço de interação para que os pais compartilhem entre si e mesmo com os educadores suas frustrações, anseios e vitórias. A família na escola é mais que uma reunião bimestral entre pais e mestres. Há que se pensar no espaço de pais e mestres. 

próximo post autoridade x autoritarismo 

 

 

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