Você sente que está exercendo plenamente sua cidadania? Quando anda pela cidade acredita que seus direitos de cidadão estão sendo respeitados na questão do “livre ir e vir”. As ruas te permitem mobilidade em tempo hábil seja de carro ou ônibus? As caladas são espaçosas, niveladas e permitem que desfrute de uma caminhada tranqüila da sua casa até a panificadora, por exemplo?

Sei que estou batendo na mesma tecla de novo, mas acontece que neste carnaval resolvi chutar o balde da inércia e fui passar o feriado no Rio de Janeiro. Fazia mais de 10 anos que eu não ia para aqueles lados e a primeira impressão que tive ao sair o aeroporto em direção a Copacabana foi “Isto é outro mundo!” Quero dizer, em nossas queridas Goiânia e Aparecida de Goiânia as obras de acessibilidade são relativamente pequenas e demoram uma eternidade para ficar prontas como o viaduto aqui do centro de aparecida e as obras da Marginal. Já na saída do Aeroporto do Rio vi obras gigantescas e a pleno vapor no feriado.

Infelizmente fiquei pensando em como ainda somos pequenos e manipuláveis, presos em um cabresto que mal conseguimos ver. Goiânia e Aparecida de Goiânia têm sofrido com a morosidade das obras que podendo ser acabadas em meses são arrastadas por anos a fio. E nós, goianos e aparecidenses somos passivos. Aceitamos os altos encargos estaduais e municipais, nos fingimos de bravos, fazemos um barulho na rua e voltamos para nossas vidinhas deixando que “montem no nosso lombo”. Como conseqüência perdemos qualidade de vida. Temos cidades que não comportam a quantidade de carros que circula diariamente e um transporte coletivo ineficiente.

Outra coisa que me chamou muito a atenção, não só em Copacabana, mas em todos os lugares que passem no Rio de Janeiro foi a arborização. Vivemos dizendo que Goiânia é uma cidade bem arborizada, ver como é uma verdadeira cidade arborizada me fez sentir bem idiota.

Em Goiânia e Aparecida de Goiânia virou até piada o fato de quem tem carro tirar o dito cujo até para ir à esquina comprar um pãozinho. Mas a verdade é que o cidadão faz isso por vários motivos que não tem graça nenhuma. Primeiro NÃO TEMOS UMA CIDADE VERDADEIRAMENTE ARBORIZADA. Moramos em um lugar cujo calor é intenso e o sol não dá trégua e ainda sim quase não vejo árvores das calçadas; Ao caminhar pelo Rio de Janeiro todas as calçadas tinham árvores – Arvores de copa, frondosas que faziam sombra de verdade e não “palmeiras ridículas” que não aliviam em nada o calor e se espalham por Goiânia nos canteiros.

Árvores em uma cidade servem para melhorar a qualidade do ar absorvendo CO² e promover sombra para incentivar o cidadão a caminhar pelas calçadas.

Outro problema nosso: as calçadas. Elas mais parecem pistas de obstáculos. Nos bairros residenciais cada uma tem uma altura diferente, às vezes até muretas atrapalham a circulação, ou são tão estreitas que obrigam a pessoa a andar na rua. Tem bairros que apesar de todo o desenvolvimento ainda tem quadras em calçadas obrigando o cidadão a escolher entre a terra e o asfalto. Triste isso. Quando temos calçadas largas e niveladas o que ocorre com elas? Viram estacionamento porque a cidade tem carros demais e nenhum planejamento ou estacionamentos públicos (ainda que tivessem alguma taxa de manutenção aliviariam setores como o cetro, o Bueno, imediações de shoppings).

img1424791444662Observando o Rio de Janeiro e relação das pessoas com a assecibilidade fica claro que calçadas largas, niveladas e arborizadas não contribuem apenas com a qualidade de vida, mas aquecem a economia. Toda quadra, toda esquina tem cafés, lanchonetes, panificadoras, padarias, isso porque as pessoas caminham pelas calçadas ao invés de tirarem os carros da garagem toda vez que vão sair. Ao caminhar elas passam por lugares que chamam a atenção e comem mais fora de casa de modo que este negócio tem mais chances de prosperar do que em cidades como Goiânia e Aparecida de Goiânia que desestimulam o cidadão a caminhar.

Fechamos-nos em galerias e shoppings e deixamos comércios locais falirem porque é mais fácil estacionar no Carrefour do que no mercado da esquina de casa. É mais fácil comer um muffin no Flamboyant do que descobrir que a panificadora a duas quadras da nossa faz um bem melhor, isso porque para chegar à panificadora é preciso caminhar no sol, passar por calçadas cheias de buracos, ou com alturas diferentes em cada garagem ou ainda caminhar direto na rua.

Cidadania está nas pequenas coisas do dia a dia das quais nos privamos.  Como podemos exercer pleno gozo dos nossos diretos mais básicos se nos são negados todos os dias e nos calamos e pior, fazemos parte do problema começando por nossa própria casa, quando não temos cuidado com nossa calçada, preferimos tirar as árvores porque temos medo de chegar à noite e ter algum bandido a espreita esperando abrir o portão, porque preferimos ter mais espaço para carros, porque não nos importamos que nosso vizinho precisasse pular para descer da nossa calçada já que nivelar com a rua dava trabalho e preferimos fazer aquela rampa de quase noventa graus.

Como queremos que o nosso governo não se arraste em obras ridículas por anos se nós não fazemos o certo na porta da nossa casa? Como queremos não morrer de calor se somos os primeiros a dispensar as arvores?

É incrível como no Rio de Janeiro não senti nenhuma falta do meu carro. Tive prazer em caminhar pelas quadras de diversos bairros porque as árvores e plantas dos canteiros da calçadas tornavam o calor mais ameno. Porque em todo lugar havia algum lugar (charmoso) para parar tomar um suco ou comer. Então quando dizem que o goiano é provinciano eu aceito, quando dizem que aqui é uma roça asfaltada fica difícil discutir, pois nossa mentalidade não evoluiu a ponto de realmente sermos uma grande cidade. Cada um ainda pensa só em si mesmo enquanto devíamos também pensar na qualidade de vida da coletividade.

Somos duros de coração, preguiçosos e presunçosos quando queremos qualidade de vida, mas não saímos da inércia para lutar por ela. Bastaria que cada um fizesse um pouco e as nossas cidades irmãs seriam esplêndida, pois Goiânia e Aparecida têm potencial para serem deslumbrantes e boas de viver.

 

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