Falar sobre aborto é sempre difícil, desde ontem estou quebrando a cabeça para escrever sobre este post. Na minha humilde opinião é um dos assuntos mais complexos que existem pois envolve muito mais do que certo e errado. Envolve quase todos os aspectos da vida e da psique de uma pessoa.

Lembro que na minha adolescência era mais fácil ver o mundo em preto ou branco, em certo ou errado. Na minha cabeça o certo era se fez sexo arcar com as consequências, que aborto era(é) assassinato, era (é) crime. Mas a vida tem formas diversas de nos ensinar que o radicalismo é sinônimo de ignorância e de arrogância.

Condenar e execrar a mulher que fez aborto é tão ruim quando o aborto em si. Vivemos um momento em nossa sociedade que não podemos mais ser hipócritas e fechar os olhos para a realidade de que as mulheres desesperadas, se não forem devidamente amparadas vão sim fazer o aborto e muitas vão morrer na mão de açougueiros.

A discussão não devia ser sobre legalizar ou não o aborto. Acho que dos passos esse seria o menor para resolver o problema. Não se ataca uma doença por seus sintomas, mas por suas causas.

Não sou a favor do discurso de que  “A mulher é dona do seu corpo e faz o que quiser dele.” Nosso corpo tal como é – perfeito ou não – é presente de deus assim como a capacidade de gerar uma vida. Dispor das dádivas divinas de forma irresponsável é como ganhar um diamante usar como calço de porta ou peso de papel.

Acredito que cada caso seja único, como cada ser humano é único no universo. Deveríamos deixar de hipocrisia com relação a legalização pois ela permitiria politicas mais efetivas na prevenção do mesmo. Não estou dizendo que devíamos “liberar geral” mas que mulheres que em seu momento de desespero deveriam ter onde pedir ajuda antes de chegar ao extremo. Enquanto houver clandestinidade perdemos a oportunidade de saber quem são, quais seus motivos e como ajuda-las a não chegar a de fato ao aborto enquanto houver uma possibilidade de salvar a criança e a consciência da mãe.

Enquanto o tema for um tabu, e houver clinicas clandestinas muitas mulheres serão ainda vítimas do medo, das inseguranças e mesmo do próprio egoísmo. Quantos abortos poderiam ser evitados se ao invés comprar medicamentos por baixo dos panos ou usar métodos abortivos caseiros a mulher tivesse sido assistida por um médico de verdade e um psicólogo.

Sexo não é um brinquedo, embora nossa sociedade o trate assim, a consequência direta dele que é gerar uma vida abala a mulher muito mais do que qualquer outro aspecto da vida e ficamos tão ocupados culpabilizando que nos esquecemos que há casos e casos.

Tantas as mulheres na nossa sociedade que sofrem abusos sexuais e são forçadas a lutar consigo mesmas todos os dias gerando uma vida dentro de si e odiando a si mesmas por isso? Se é certo elas abortarem? Acho que o juiz disso é a consciência de cada um, cada um sabe até onde lhe vão as forças.

E os casos fúteis? Aquelas que não querem ter um filho para não estragar o corpo e a carreira? Estas são tão dignas de compaixão quanto quaisquer outras. E talvez seu numero fosse bem menor se nossa sociedade fosse menos materialista e mais solidária e o sexo não fosse tão banalizado.

Nossa sociedade é doente em tantos aspectos, que para resolver o problema não basta legalizar ou proibir. È preciso que sejamos menos duros de coração nos dois lados da balança.

Nossa sociedade sempre vê o problema pelos olhos do homem, o homem que não gera dentro dele, que não sente outra vida crescendo e não conhece os medos, carências e dores de ser uma mulher. Está errado isso.

Queridos leitores, espero que entendam que não estou defendendo o aborto, estou defendendo uma abordagem mais humana para que menos mulheres e bebes morram devido ao medo e a ignorância. Defendo uma sociedade mais solidária, até por que cedo ou tarde o aborto cobrará seu preço na consciência. Afinal é um ato que uma vez consumado jamais será esquecido, seja por qual motivo for. Seja legalizado ou clandestino, seja por vaidade ou em resposta a uma violência anterior  as cicatrizes que deixa no corpo e na alma não podem ser medidas pelos olhos alheios.

Acredito que abrir os olhos da sociedade para esta realidade daria um porto seguro onde pedir ajuda e para ter a atitude mais corajosa, deixar a criança nascer ainda que vá para a adoção.

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