O SILMARILLION – J. R. R. TOLKIEN – Minhas reflexões

download (8)Tem alguns livros que simplesmente marcam a gente. É o caso do “SILMARILLION” a primeira vez que o li eu estava com 22 anos, foi logo depois de ler “O Senhor dos Aneis” que amo por vários motivos começando pela estrutura narrativa, construção dos personagens… bom este post não é sobre ele. kkkkk

O SILMARILLION me marcou primeiro por sua estrutura que embora seja narrativa traz uma musicalidade intrínseca. É meio como mergulhar nas lendas primordiais. Vejo a narrativa como algo próximo a estrutura oral das lendas da velha Mesopotâmia. Ao menos me trouxe o mesmo sentimento nostálgico de ler a epopéia de Gilgamesh. Em segundo me marcou profundamente a imagem que ele pinta da criação.

Havia Eru, o Único, que em Arda é chamado de Ilúvatar. Ele criou primeiro os Ainur, os
Sagrados, gerados por seu pensamento, e eles lhe faziam companhia antes que tudo o mais
fosse criado.

Este início nos lembra a ganeses bíblica, mas vai um pouco mais além, porque não começa pela criação da matéria, ou da terra. Começa na criação do espírito antes do universo.

Lembra muito o inicio do Livro dos espíritos – que diz que Deus é o Criador incriado do universo, causa primária de todas as coisas. Assim o SILMARILLION traduz a ideia de Deus na imagem de Eru. Este Deus não cria primeiro a Matéria, mas sim o espírito. os Anuir.

Pietro Umbaldi vai nos propor em suas obras a teoria da queda segundo a qual nós espírito no principio existimos antes do universo material, em perfeita harmonia com o criador e que por alguma hibris deixamos de pertencer a harmonia cósmica e passamos a nos pender a corpos materiais.

Amo mitologia desde os meus nove anos de idade – quando comecei a procurar por mitos gregos, mas foi só na adolescência que conhecia a Teogonia de Hesíodo e seu mito da criação.

Sim bem primeiro nasceu Caos, depois também
Terra de amplo seio, de todos sede irresvalável sempre,
dos imortais que têm a cabeça do Olimpo nevado,
e Tártaro nevoento no fundo do chão de amplas vias,
e Eros: o mais belo entre Deuses imortais,
solta-membros, dos Deuses todos e dos homens todos
ele doma no peito o espírito e a prudente vontade.
Do Caos Érebos e Noite negra nasceram.
Da Noite aliás Éter e Dia nasceram,
gerou-os fecundada unida a Érebos em amor.

 

E quanto mais eu pesquisava, mais fascina ficava com a riqueza das lendas e mais observava que quase todas as gêneses começam pela criação da matéria. Mesmo que haja uma divindade primordial logo origina-se o casal primordial – seja dia e noite, luz e sombra…

A ENUMA ELISH começa com:

Quando não havia firmamento, nem terra, alturas, profundezas ou sequer nomes, images (4)
Quando o Apsu estava sozinho,
Ele, as águas doces, o iniciador da criação, e Tiamat, as águas salgadas, e útero do universo, quando não existiam os deuses….

Quando as águas doces e as salgadas estavam juntas, misturadas,
Os juncos não estavam trançados, ou galhos sujavam as águas,
quando os deuses não tinham nome, natureza ou futuro, então a partir de Apsu e Tiamat, nas águas dele e dela, foram criados os deuses, e para dentro das águas precipitou-se a terra 

Já tratando dos primórdios do mundo material.

Seja o Caos, Apso ou qualquer outra divindade ela cria. Dá origem sem nada a ter originado. Assim é o Deus cristão e Eru do SILMARILLION. Criador incriado, causa primária que gera em pensamento.

Os Ainur são imateriais, perfeitos como o pensamento do criador.

E ele lhes falou, propondo-lhes temas musicais; e eles cantaram em sua presença,
e ele se alegrou. Entretanto, durante muito tempo, eles cantaram cada um sozinho ou apenas
alguns juntos, enquanto os outros escutavam, pois cada um compreendia apenas aquela parte da mente de Ilúvatar da qual havia brotado e evoluía devagar na compreensão de seus irmãos. Não obstante, de tanto escutar, chegaram a uma compreensão mais profunda, tornando-se mais consonantes e harmoniosos.

Sobre a queda.

Na mitologia judaico cristã temos a história dos anjos, criados por Deus antes dos Homens e que estes anjos, por ciumes, orgulho e vaidade guerrearam entre si havendo uma divisão entre os anjos celestes e os anjos caídos.

Bem – entres os Ainur também temos uma queda. Melkor semelhante a Lúcifer:

A Melkor, entre os Ainur, haviam sido concedidos os maiores dons de poder e
conhecimento, e ele ainda tinha um quinhão de todos os dons de seus irmãos.

E como Lúcifer ele não estava satisfeito

Muitas vezes, Melkor penetrara sozinho nos espaços vazios em busca da Chama Imperecível, pois ardia nele o desejo de dar Existência a coisas por si mesmo; e a seus olhos Ilúvatar não dava atenção ao Vazio, ao passo que Melkor se impacientava com o vazio. E, no entanto ele não encontrou o Fogo, pois este está com Ilúvatar. Estando sozinho, porém, começara a conceber pensamentos próprios, diferentes daqueles de seus irmãos.

Alguns desses pensamentos ele agora entrelaçava em sua música, e logo a dissonância surgiu ao seu redor. Muitos dos que cantavam próximo perderam o ânimo, seu pensamento foi perturbado e sua música hesitou; mas alguns começaram a afinar sua música a de Melkor, em vez de manter a fidelidade ao pensamento que haviam tido no início. Espalhou-se então cada vez mais a dissonância de Melkor, e as melodias que haviam sido ouvidas antes soçobraram num mar de sons turbulentos. Ilúvatar, entretanto, escutava sentado até lhe parecer que em volta de seu trono bramia uma tempestade violenta, como a de águas escuras que guerreiam entre si numa fúria incessante que não queria ser aplacada.

Como divindade criadoraEru, o Ilúvatar, a revolta deMelkor, e mesmo a dissonância por ele criada não eram em absoluto uma surpresa, mas parte do próprio processo de criação.

Então, falou Ilúvatar e disse: – Poderosos são os Ainur, e o mais poderoso dentre eles é Melkor; mas, para que ele saiba, e saibam todos os Ainur, que eu sou Ilúvatar, essas melodias que vocês entoaram, irei mostrá-las para que vejam o que fizeram E tu, Melkor, verás que nenhum tema pode ser tocado sem ter em mim sua fonte mais remota, nem ninguém pode alterar a música contra a minha vontade. E aquele que tentar, provará não ser senão meu instrumento na invenção de coisas ainda mais fantásticas, que ele próprio nunca imaginou.

Ao descrever os Ainur e seu poder como formas musicais deixa a leitura fluida e onirica, nos leva e este mundo fantástico onde a melodia cria formas. O duelo musical entre a rebeldia de Melkor e a criação em poucos parágrafos é intensa e furiosa. Não é como visualizar as batalhas de Senhor dos anéis, tem um sentindo mais espiritual repetindo a rebeldia de Lúcifer e ao mesmo tempo demonstrado que ela seria o mesmo que um sopro passageiro na grande criação.

Sobre a metáfora da criação:

Gênesis 1

1No princípio criou Deus o céu e a terra.

2E a terra era sem forma e vazia; e havia trevas sobre a face do abismo; e o Espírito de Deus se movia sobre a face das águas.

Melkor ressentia-se do vazio, pois o vazio também aparece na Génesis bíblica – para mim esta é uma das imagens mais bonitas do mito da criação judaco-cristão.

No SILMARILLION Eru utiliza a melodia de seus filhos Anuir para dar forma ao vazio. Para criar a matéria e o mundo material.

Entretanto, quando eles entraram no Vazio, Ilúvatar lhes disse: – Contemplem sua Música! – E lhes mostrou uma visão, dando-lhes uma imagem onde antes havia somente o som E eles viram um novo Mundo tomar-se visível aos seus olhos; e ele formava um globo no meio do Vazio, e se mantinha ali, mas não pertencia ao Vazio, e enquanto contemplavam perplexos, esse Mundo começou a desenrolar sua história, e a eles parecia que o Mundo tinha vida e crescia. E, depois que os Ainur haviam olhado por algum tempo, calados, Ilúvatar voltou a dizer: – Contemplem sua Música! Este é seu repertório. Cada um de vocês encontrará aí, em meio à imagem que lhes apresento, tudo aquilo que pode parecer que ele próprio inventou ou acrescentou. E tu, Melkor, descobrirás todos os pensamentos secretos de tua mente e perceberás que eles são apenas uma parte do todo e subordinados à sua glória.

Uma das implicações da teoria da queda seria que a criação da matéria foi consequência da hibris – da queda espiritual que é representada pelo mito de Lucifer. Em um paralelo a dissonância de Melkor é em parte responsável pela criação da matéria. Os traços que remetem a arrogância, o ciúme, a vaidade assim como o pecado teria entrado no mundo por meio do anjo caído que tentou Eva na forma de serpente.

Assim como os anjos não participaram da criação do homem, os Ainur não participaram da criação do terceiro tema:

Pois os Filhos de Ilúvatar foram concebidos somente por ele; e surgiram com o terceiro tema; eles não estavam no tema que Ilúvatar propusera no início, e nenhum dos Ainur participou de sua criação. Portanto, quando os Ainur os contemplaram, mais ainda os amaram, por serem os Filhos de Ilúvatar diferentes deles mesmos, estranhos e livres; por neles verem a mente de Ilúvatar refletida mais uma vez e aprenderem um pouco mais de sua sabedoria, a qual, não fosse por eles, teria permanecido oculta até mesmo para os Ainur.

Assim o vazio foi preenchido pela matéria e a matéria ocupada por seres materiais. Os Anuir que não se rebelaram contra o criador amaram suas criaturas, e desceram ao plano material abrindo mão de sua “potência” e trabalhando na diversidade da criação.

Ora, os Filhos de Ilúvatar são elfos e os homens, os Primogênitos e os Sucessores. E em meio a todos os esplendores do Mundo, seus vastos palácios e espaços e seus círculos de fogo, Ilúvatar escolheu um local para habitarem nas Profundezas do Tempo e no meio das estrelas incontáveis.

Os elfos estão na mitologia europeia, e a imagem dos Elfos de Tolkien é muito diversa por exemplo da imagem que aparece nos mitos Nórdicos. Na qual os Alfs ou Alfr dividem-se em duas categorias os seres luminosos quase divinos a semelhança de fadas ou ninfas e os escuros, deformados e maus.

A imagem mais popular dos Alfs ou Alfr era justamente a do diabrete que roubava crianças do berço no meio da noite, sequestrava e violava donzelas etc. A ideia dos belos e sábios elfos que deriva dos Alfs ou Alfr luminosos popularizou-se atraves da literatura de Tolkien. Até então eram mais conhecidas as lendas nas quais ele agem como demônios.

Literalmente, os elfos são gênios que, na mitologia escandinava, simboliza o ar, a terra, o fogo e água.

Na mitologia de Tolkien eles representam a longevidade e a harmonia com a natureza, não sendo desprovidos de defeitos ou paixões, mas ainda são mais sábios que raça dos homens.

images (5)Os Elfos de Tolkien tem um aspecto que os aproxima das lendas referentes a lugares míticos como Avallon ou mesmo Atlandida. Ao longo de Senhor dos anéis eles estão sempre saudosos de seu lugar de origem. Sua ilha maravilhosa da qual saíram por curiosidade e desobediência.  O saudosismo dos Elfos de Tolkien remete aos nossos mitos do paraíso perdido. Quase todos os povos tem mitos referentes a uma era de ouro deixada para trás, isto está no inconsciente coletivo de quase todas as culturas.

Mas, quando os Ainur contemplaram essa morada numa visão e viram os Filhos de Ilúvatar surgirem dentro dela, muitos dos mais poderosos dentre eles concentraram todo o seu pensamento e seu desejo nesse lugar. E, desses, Melkor era o chefe, exatamente como no início ele fora o mais poderoso dos Ainur que haviam participado da Música. E ele fingia, a princípio até para si, que desejava ir até lá e ordenar tudo pelo bem dos Filhos de Ilúvatar, controlando o turbilhão de calor e frio que o atravessava. No fundo, porém, desejava submeter à sua vontade tanto elfos quanto homens, por invejar-lhes os dons que Ilúvatar prometera conceder-lhes; e Melkor desejava ter seus próprios súditos e criados, ser chamado de Senhor e ter comando sobre a vontade de outros.
Já os outros Ainur contemplaram essa habitação instalada nos vastos espaços do Universo, que os elfos chamam de Arda, a Terra; e seus corações se alegraram com a luz, e seus olhos,
enxergando muitas cores, se encheram de contentamento; porém, o bramido do oceano lhes
trouxe muita inquietação. E observaram os ventos e o ar, e as matérias das quais Arda era feita: de ferro, pedra, prata, ouro e muitas substâncias. Mas de todas era a água a que mais enalteciam. E dizem os eldar que na água ainda vive o eco da Música dos Ainur mais do que em qualquer outra substância existente na Terra; e muitos dos Filhos de Ilúvatar escutam, ainda insaciados, as vozes do Oceano, sem contudo saber por que o fazem.

A narrativa nos leva para um tempo antes do tempo. Os Ainur viram homens elfos antes deles nascerem no mundo. Assim toda a ação se desenrola fora da matéria até que Ilúvatar os conclamou, e disse:

Conheço o desejo em suas mentes de que aquilo que viram venha na verdade a ser, não apenas no pensamento, mas como vocês são e, no entanto, diferente. Logo, eu digo: Eä! Que essas coisas Existam! E mandarei para o meio do Vazio a Chama Imperecível; e ela estará no coração do Mundo, e o Mundo Existirá; e aqueles de vocês que quiserem, poderão descer e entrar nele. – E, de repente, os Ainur viram ao longe uma luz, como se fosse uma nuvem com um coração vivo de chamas; e souberam que não era apenas uma visão, mas que Ilúvatar havia criado algo novo: Eä, o Mundo que É.

Aconteceu, assim, de entre os Ainur alguns continuarem residindo com Ilúvatar fora dos
limites do Mundo, mas outros, e entre eles muitos dos mais fortes e belos, despediram-se de
Ilúvatar e desceram para nele entrar.

images (7)Tolkien traduz lindamente a nossa ideia de paraíso pedido desde os primórdios de sua criação. O nascimento do mundo que primeiro se deu em pensamento e música torna-se matéria quando os Ainur passam a residir no mundo que veio preencher o vazio.

Mas quando os Valar entraram em Eä, a princípio ficaram assustados e desnorteados, pois era como se nada ainda estivesse feito daquilo que haviam contemplado na Visão; tudo estava a ponto de começar, ainda sem forma, e a escuridão era total. Pois a Grande Música não havia sido senão a expansão e o florescer do pensamento nas Mansões Eternas, sendo a Visão apenas um prenúncio; mas agora eles haviam entrado no início dos Tempos, e perceberam que o Mundo havia sido apenas prefigurado e prenunciado; e que eles deveriam concretizá-la. Assim teve início sua enorme labuta em espaços imensos e inexplorados, e em eras incontáveis e esquecidas, até que nas Profundezas do Tempo…

A ideia de que os Valar (Ainur que preferiram descer ao mundo) eram em principio imateriais é reforçada logo a seguir.

Então os Valar assumiram formas e matizes; e, atraídos para o Mundo pelo amor aos Filhos deIlúvatar, por quem esperavam, adotaram formas de acordo com o estilo que haviam
contemplado na Visão de Ilúvatar, menos na majestade e no esplendor. Além do mais, sua
forma deriva de seu conhecimento do Mundo visível, em vez de derivar do Mundo em si; e elesnão precisam dela, a não ser apenas como as vestes que usamos, e, no entanto podemos estar nus sem sofrer nenhuma perda de nosso ser. Portanto, os Valar podem caminhar, se quiserem, despidos; e nesse caso nem mesmo os eldar conseguem percebê-los com clareza, mesmo que estejam presentes.

Melkor, cheio de inveja e desejo de dominação a exemplo dos valar também assumiu forma visível, e diferente de seus irmãos sua forma foi escura e terrível.

Nota-se que depois da criação, com o surgiemento da matéria, mas antes da era dos homens e dos Elfos os Valar atraem companheiros para trabalhar com eles. Me pergunto quando foram criados? Seriam ecos da canção de Eru?

Isto lembra que em outros mitos da criação o mesmo ocorre. Quando Adão e Eva são expulsos do paraíso e tem sua prole fora do Eden, Cain mata o irmão e é exilado tendo se casado com uma mulher na Babilônia. De onde ela veio se Adão e Eva foram os primeiros e ela não é descendente deles ???

As lutas descritas entre os Valar e Melkor lembram muito a gêneses da ENUMA ELISH. Há a força criadora representada pelos Valar e o caos representado por Melkor.

 ENUMA ELISH

Dias seguiram outros dias, anos seguiram outros anos,
Até Anu, o firmamento vazio, herdeiro e conquistador,
primogênito de seu pai, à imagem de sua própria natureza,
fez nascer Nudimud-Ea,
intelecto, sabedoria, maiores do que o horizonte dos céus,
o mais forte dentre seus pares.

Discórdia rompeu entre os deuses, apesar de serem irmáos, e a brigar eles começaram na barriga de Tiamat, fazendo o céu tremer, e se mexer como numa dança frenética, de tal forma que Apsu não pode silenciar o clamor dos jovens deuses, fazer cessar tal mal comportamento, altaneiro e orgulhoso.

As guerras entre os Vallar e Melkor se assemelham a discordância dos deuses primordiais no ventre de Tiamat – a mãe do mundo.  Estas guerras moldam Arda assim como as lutas de Marduk no ventre de Tiamat moldam o mundo.

eles criaram terras, e Melkor as destruía; sulcavam vales, e Melkor os erguia; esculpiam montanhas, e Melkor as derrubava; abriam cavidades para os mares, e Melkor os fazia transbordar; e nada tinha paz ou se desenvolvia, pois mal os Valar começavam algum trabalho, Melkor o desfazia ou corrompia. E, no entanto, o trabalho deles não foi totalmente vão; e embora em tarefa ou em parte alguma sua vontade e determinação fossem perfeitamente cumpridas, e todas as coisas fossem em matiz e forma diferentes da intenção inicial dos Valar, apesar disso, lentamente, a Terra foi moldada e consolidada.

Já na  ENUMA ELISH

E para Tiamat, que ele conquistou, ele voltou. E o senhor permaneceu sobre as partes ocultas de Tiamat, e com o seu implacável bastão ele esmagou a sua caveira. Cortou todos os canais do sangue dela, E fez com que o vento do Norte o arrojasse para os lugares secretos. Os seus pais atentaram, e se regozijaram e ficaram alegres; Presentes e ofertas lhe foram trazidos. Então o senhor descansou, olhando intensamente para o corpo dela morto, Enquanto dividia a carne de … , e punha em prática um plano desenvolto. Ele a separou como um peixe sem escamas em duas metades; Metade dela a estabeleceu com uma coberta para o céu. Fixou uma plataforma, postou uma sentinela, E ofereceu-as para não deixarem as suas águas saírem. Passou pelos céus, examinou as suas regiões, E nas profundezas estabeleceu a morada de Nudimud. e o senhor mediu a estrutura do Abismo, Fundou E-sara, uma mansão como para ele. A mansão E-sara que ele criou como céu, Ele fez que Anu, Bel, e Ea habitassem em seus distritos ··

Assim como Marduk dividiu a terra para os deuses os Valar dividiram Arda segundo seus interesses ou melhor segundo seus elemtos, pois a exemplo dos deuses da ENUMA ELISH e mesmo dos mitos escandinavos que inspiraram os Elfos de Tolkien, os Valar representam elementos da natureza e por tal são venerados.

Ulmo é o Senhor das Águas. Ele vive só. Não mora em lugar algum por muito tempo, mas se movimenta à vontade em todas as águas profundas da Terra ou debaixo dela.

Todos os mitos da criação trazem expresso o fascínio pela água. Na ENUMA ELISH

download (10)Quando nos altos céus não era mencionado, E a terra em baixo ainda não tinha nome, E o primevo (primitivo) Apsu, que os criou, E o Caos, Tiamat, a mãe de ambos As suas águas foram misturadas umas com as outras, E nenhum campo fora formado, e não se via nenhum pântano;

(…)

Geneses bíblica 

Era a terra sem forma e vazia; trevas cobriam a face do abismo, e o Espírito de Deus se movia sobre a face das águas.

Então Deus fez o firmamento e separou as águas que ficaram abaixo do firmamento das que ficaram por cima. E assim foi.

Ulmo se assemelham muito a Posseidon, da mitologia grega, em seu aspecto terrível, e Ea em seu aspecto sublime. Tolkien cria uma divindade marítima complexa e fascinante que possui a sua maneira onipresença.

Pois tem sob seu domínio todos os mares, lagos, fontes e nascentes, e os elfos dizem que
o espírito de Ulmo corre em todas as veias do mundo Assim, mesmo nas profundezas do mar, chegam a Ulmo notícias de todas as necessidades e aflições de Arda, que de outra forma permaneceriam ocultas a Manwë.

As águas em todas as mitologias tem um significado importante, são fontes de vida. No cristianismo o batismo, o primeiro sacramento ocorre nas águas. Este elemento é o que melhor comporta a natureza ambivalente luz/sombra, paz/fúria, nascimento/morte …. O fato de ondularem e vibrarem as tonam um elemento perfeito para guardar o “canto de Iluvatar” ou o canto da criação. Quem melhor trata a profundidade do signo “agua” é Gaston Bachelard no livro “A água e os sonhos.”

Aulë representa o elemento terra, sendo o criador dos Noldor – anões. No passado a humanidade que não dispunha de conhecimentos sobre genética buscou respostas para o nanismo e a pequena estatura de alguns grupos étnicos como os pigmeus. Assim surgiram uma série de lendas sobre anões. Mas a maioria das lendas conhecidas os relacionam a fadas, duendes etc… Os anões que povoam nossa imaginação hoje são mais frutos de tolkien e seus sucessores que dos mitos mais antigos.

Interessante que a esposa de Aulë, Yavanna é uma imagem de “deusa da fertilidade” ou “deusa da primavera” semelhante a Persefone que passa parte oculta na terra – semente – e parte fora dela – frutifica. É uma imagem recorrente em divindades femininas por toda a mitologia e aparece na literatura como Helena de Troia – que é uma deusa da primavera (originalmente) Gwinever das lendas do rei Arthur. Imagem desconstruída pelos ritos judaicos-cristãos que dão primazia a natureza masculina do divino.

Algo interessante de se observar considerando a forte carga de referencias biblicas no mito da criação de SILMARILLION, pois o texto consegue aliar ideias de mitos como a Enuma Elish, mitos nordicos e escandinavos criando um universo fascinantemente poético e rico. Apesar dos traços das diversas mitologias ainda é uma mitologia completamente nova que não renega suas inspirações, mas tem força por si mesma.

Outra coisa interssante é o modo como é tratada a morada dos mortos. Nos mitos antigos o Tartaro, o submundo etc é algo horrivel de se imaginar pois é a existência fora da matéria. Os heróis mortos que aparecem na “Odisseia” quando Ulisses desce a morada dos mortos são palidos e almejam a vida. Mesmo os campos Eliseos não se comparam a viver na matéria.

Námo, não é uma copia de Hades, e sua esposa Vairë mais se assemelha as moiras que a Perséfone. Assim diferente dos mitos antigos em que o deus relacionado a terra substancia(metal, mineiro, mineração) difere do deus dos mortos. Separando a ideia de sepultamento da ideia de submundo. A morada dos mortos em SILMARILLION tem e não tem uma entrada física sendo muito mais metafísico.

A terra dos Mortos não é reservada para os Valar, nem para os Elfos propriamente, mas para as almas humanas e nisso há um certo sentimento de inveja destes paa com a ultima raça.

 

Ainda haveria muito o que dizer, mas acho que este post já ficou demasiado longo

 

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