Desde a minha época de caloura – Já faz uma vida kkkk – eu ouço sobre discurso de Gênero, Violência de Gênero… mas o que vem a ser Gênero Sexual? A maioria das pessoas vai dizer que Gênero é Masculino e Feminino. Aliás até a nossa gramática corrobora isso. Mas esta é uma resposta muito simplista. Com a polêmica da fase de Simone de Beauvoir que este ano causou a maior polêmia na prova do Enem, mostrando como o brasileiro ainda é machista, sexista e ignorante (homens e mulheres).

Mais do que nunca Gênero sexual é mais uma construção social que Biológica. Ser anatomicamente macho e fêmea não determina que roupas deve-se usar, que cor gostar, que brinquedos são “corretos” tudo isso é imposto pela construção social.

Violência sexista de Gênero atinge homens e mulheres e pior, atua na construção da sua noção de masculinidade e feminilidade. Quando dizermos que um menino não pode usar rosa ou brincar de bonecas ou que uma menina não pode gostar de carrinhos porque quando crescerem não vão cumprir seus papeis biológicos de macho e fêmea estamos sim cometendo atos de violência.

Eu cresci brincado de carrinhos de fricção, jogava futebol com os meninos, soltava pipa e nem por isso sou menos mulher, ou deixo de ser feminina. Meus primos, mais de uma vez – fosse por caridade ou interesse – quando pequenos brincaram comigo e minhas bonecas. Claro que depois que descobriam o futebol e os amiguinhos de escola nunca mais tiveram interesse por isso, mas não são menos homens por isso. “As namoradas que o digam kkkk”

Não é o brinquedo ou a cor da roupa que determina a sexualidade. Mas a negação de que a brincadeira é para todos pode levar a psique machista. São estes comportamentos que constroem na sociedade a ideia de que a criação dos filhos é obrigação só da mulher, que a mulher não é um ser autônomo e que depende do homem para ser completa etc.

A violência de Gênero constrói modelos engessados de comportamento que limitam o exercício da própria personalidade. Homens que possuem por natureza uma maior sensibilidade, sem por isso ter tendência homossexuais são tratados como afeminados, excluídos, e por vezes impelidos a fingir para si mesmo e para os outros. São limitados as profissões tipicamente masculinas e reproduzem a violência que sofrerem em seus filhos e filhas.

A mulher neste quadro quando opta por profissões tipicamente masculinas é humilhada e por vezes estuprada. O estupro, para certos homens(nojento) é uma forma de afirmação da masculinidade sobre a mulher. Uma maneira de delimitar seu espaço no mundo, e sendo uma das piores violências que o ser humano pode sofrer, é uma forma eficiente de marcar a mulher de modo que sinta que é inferior ao homem.

Varre-se para debaixo do tapete, mas mulheres que entram no mundo profissional masculino sofrem com assedio moral e sexual sim. E se calam por medo de perder o emprego, de serem taxadas como putas, por medo das outras mulheres, moldadas pelo discurso sexista de Gênero.

Isso porque nem falamos dos homossexuais, que via de regra não se encaixam no discurso tradicional de Gênero, os transsexuais etc…

Faz pouco tempo na tv por assinatura eu conheci uma realidade que eu nem sequer imaginava: a existência de crianças trans. Crianças que desde a primeira infância não se aceitam como meninos, e tem toda a sua psique feminina no sentindo mais “animico”. Crianças que psicologicamente tem horror ao seu órgão sexual por ele impedir que vivenciem experiências socialmente e até mesmo fisiologicamente do sexo feminino. Em nossa sociedade maniqueísta, machista e patriarcal como pais podem lidar com isso? A maioria lida com violência física e psicológica espremendo a criança nos padrões aceitos.

Pense bem, se pais tem dificuldade em lidar e aceitar meninas que gostem mais de calças que saias e vestidos, que gostem de futebol, ou skate etc… imagine com uma criança trans, que na verdade não é nem menino nem menina porque fisicamente foi moldado pela natureza de um modo, mas desde sempre sente-se de outro.

Normalmente são necessários anos de terapia e auto descoberta para um adulto chega ao ponto de dizer que está pronto para ser um trans sexual, então quando uma criança desde sempre já trás todo o conjunto de construção de si mesma  remando contra a maré da sociedade como devemos agir?  Devemos ser escravos da biologia? Devemos socialmente impor o que nos foi imposto?

Temos algum direito de impor a construção da nossa sexualidade nos nossos filhos? Devemos obrigar as meninas a serem bonecas e os meninos machões? Devemos ensinar que mulheres devem emocionalmente depender de um homem para serem felizes? Devemos ensinar que sexo é feio, é pecado e é ruim quando é praticado pela mulher? Mas que é status ser garanhão? Devemos ensinar que a mulher conhecer o próprio corpo é ser puta? Que a mulher gostar de sexo é ser puta? Que casar sem ter feito sexo é a única escolha correta e não uma opção?

Claro que homens e mulheres são diferentes física e psicologicamente. Nossos corpos são influenciados por diferentes hormônios, vivemos experiências muito diversas (a gravidez e amamentação) Mas diferenças devem ser respeitadas, não impostas, nem devem ser motivo para a dominação de um sobre o outro. Historicamente por termos menos força física, por precisar preservar as crianças as mulheres deixaram-se escravizar pelas sociedades arcaicas. Não somos mais primitivos lutando pela sobrevivência em ambientes adversos em meio a guerras devastadoras. A sobrevivência da espécie não depende mais da força física, então está na hora de por fim a esta mentalidade primitiva e repensar nossa estrutura.

A nossa sociedade caminha, a passos lentos, a uma nova relação homem mulher. Uma com igualdade de direitos, e igualdade pressupõe-se respeito as diferenças, mas essa nova relação passa pela construção de Gênero. É a partir das experiências vivenciadas na infância e juventude que se constrói o homem companheiro ou machista, a mulher autônoma ou a dependente psicológica/social e financeira.

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