Livros espiritas · Minhas opiniões

Iniciando a leitura de – A Gênese – Allan Kardec – PARTE II

Normalmente sou uma leitora rápida e compulsiva, mas isto vale para textos de ficção, quando se trata de teoria ou filosofia sou uma leitora mais lenta, menos compulsiva, talvez porque o fervilhar de pensamentos seja realmente intenso e não seja fácil tirar conclusões quando filosofia e fé se encontram.

Continuo no Cap 1

59. Os grandes Espíritos encarnados são, sem contradita, individualidades poderosas, mas de ação restrita e de lenta propagação. Viesse um só dentre eles,  embora fosse Elias ou Moisés, Sócrates ou Platão, revelar, nos tempos modernos, aos homens, as condições do mundo espiritual, quem provaria a veracidade das suas asserções, nesta época de cepticismo? Não o tomariam por sonhador ou  utopista? Mesmo que fosse verdade absoluta o que dissesse, séculos se escoariam antes que as massas humanas lhe aceitassem as idéias. Deus, em sua sabedoria, não quis que assim acontecesse; quis que o ensino fosse dado pelos próprios Espíritos, não por  encarnados, a fim de que aqueles convencessem da sua existência a estes últimos e quis que isso ocorresse por toda a Terra simultaneamente, quer para que o ensino se propagasse com maior rapidez, quer para que, coincidindo em toda parte, constituísse uma prova da verdade, tendo assim cada um o meio de convencer­se a si próprio.

60. Os Espíritos não se manifestam para libertar do estudo e das pesquisas o homem, nem para lhe transmitirem, inteiramente pronta, nenhuma ciência. Com relação ao  que o homem pode achar por si mesmo, eles o deixam entregue às suas próprias forças. Isso sabem­no hoje perfeitamente os espíritas. De há muito, a experiência há demonstrado ser errôneo atribuir­se aos Espíritos todo o saber e toda a sabedoria e supor­se que baste a quem quer que seja dirigir­ se ao  primeiro Espírito que se apresente para conhecer todas as coisas. Saídos da Humanidade, eles constituem uma de suas faces. Assim como na Terra, no plano invisível também os há superiores e vulgares; muitos, pois, que, científica e filosoficamente, sabem menos do que certos homens; eles dizem o que sabem, nem mais, nem menos. Do mesmo  modo que os homens, os Espíritos mais adiantados podem instruir­nos sobre maior  porção de coisas, dar­nos opiniões mais judiciosas, do que os atrasados. Pedir o  homem conselhos aos Espíritos não  é entrar em entendimento  com potências sobrenaturais; é tratar com seus iguais, com aqueles mesmos a quem ele se dirigiria neste mundo; a seus parentes, seus amigos, ou a indivíduos mais esclarecidos do  que ele. Disto é que importa se convençam todos e é o que ignoram os que, não  tendo estudado o Espiritismo, fazem idéia completamente falsa da natureza do  mundo dos Espíritos e das relações com o além­ túmulo.

Quanto mais olho a minha volta, mas eu sinto que nós gostamos muito mais de ouvir a nossa própria voz que a voz do outro. Lembro que na faculdade li um livro chamado Auto de Fé de Elias Canetti e muito me impressionava o quanto os personagens digladiavam-se com o mundo vendo apenas o que queriam ver, e ouvindo na voz dos outros apenas o eco de si mesmos. Lembro de ter escrito uma mini monografia falando da “megalomania da personagem principal” mas revendo hoje a teoria – O livro foi baseado em Kant – Vejo que não era tão fantasioso assim e expressa bem que diz o parágrafo a cima. Gostamos tanto nossa própria voz que transformamos os cultos religiosos em ecos de nós mesmos. Muitos de nós escolhem a religião, não em busca de mudança interior, mas em busca de algo em que apoiar as próprias tendências. Homens/mulheres que não gostam de assumir a responsabilidade de seus próprios atos verão nos espíritos obsessores ou na figura do diabo a desculpa para esquivarem-se de eventuais culpas, e dirão “Ele me fez fazer isso”. Para estes homens o Cristo vivo e reencarnado poderia gritar as verdades divinas em praça pública que ouviriam apenas a parte que lhes conviesse.

Não culpo as religiões pela cegueira do homem, mas a vaidade do homem como entrave para o verdadeiro sentido das religiões.

Mesmo com o plano espiritual manifestando-se de diversas maneiras em lugares diferentes do mundo, mesmo entre os espíritas e espiritualistas é difícil haver um consenso. Isso por que a reflexão cientifica e a fé humana ainda não estão em harmonia, estão caminhando ainda. Tudo que nos é dado e mostrado está sujeito a interpretação. Como o físico que tenta decifrar a mecânica do universo nós tentamos decifrar a mecânica da vida bem vivida . Se os preceitos do Cristo são universais e sobrevivem ao tempo no cerne das religiões cristãs, a forma como escolhemos entender varia. Assim como varia o modo como escolhemos entender os fenômenos espirituais.

Nossos olhos são janelas muito diversas com muitos pontos de vista para o mesmo ponto no universo. Já estive em centros kardecistas e umbandistas e vi faces diferentes da mesma centelha divina. Nomes diferentes para os mesmos tratamentos, formas diferentes de lidar com a mesma doença da alma. Não achei um uma fosse melhor ou mas certa que a outra, como não acho que a oração evangélica seja melhor ou pior que a católica ou a espirita. É mais como se uma grande verdade estivesse bem debaixo do nosso nariz, mas por mais que forcemos a visão vislumbramos apenas uma parte. A parte que nós queremos, que cabe na nossa necessidade pessoal , e que muitas vezes não afronta os nossos defeitos mais básicos, porque quando afronta sentimo-nos incomodados e desconfortáveis por precisar mudar.

Mudar é sempre uma tarefa inglória e cheia de percalços. Por mais que eu aceite a forma como a doutrina espirita foi sintetizada, não consigo deixar o sentimento de que a verdade sobre o plano espiritual só virá no final da minha jornada, e enquanto eu viver tudo que eu tenho é a escolha, escolha de em que acreditar.

Acho que isso resume o presente do livre arbítrio. Nós, no fundo de nossos corações, independente de imposições, mesmo as mais bárbaras como as dos regimes islâmicos mais radicais, nós escolhemos acreditar o não, e acreditar não está nas palavras, e as vezes nem mesmo nas ações, mas naquela inquietações que nos perseguem nas horas silenciosas ou nas grandes decisões que nos agitam o espírito. Nestes momentos a única certeza que tenho é que a vida não começa e nem acaba nesta existência, e que toda ação produz uma reação em nós mesmos e no mundo que nos cerca. Todo o resto é escolha.

Neste sentido Platão e sua teoria da caverna nunca foram tão atuais – Vivemos no impasse sem saber que o mundo real é o da matéria ou o do espírito, qual é a ilusão e qual a existência mais plena, a que temos aqui com as limitações, dores e prazeres físicos, afetos e paixões ou a que independe do corpo que diz-se ilimitada, mas é limitada a não ter a sensações do corpo ( o que torna inconcebível para a nossa mente que reconhece o mundo por meio das sensações)

Creio eu que por concebermos o mundo por meio das sensações do corpo que crer na existência espiritual seja tão difícil para a maioria de nós.  Como conceber uma existência sem frio, sem calor, sem desejo, sem prazer sexual, sem fome se todas estas coisas nos definem? Como acreditar em um mundo invisível se nos escapa ao tato?

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