Tenho assistido de camarote toda essa polêmica das organizações sociais nas escolas estaduais do Estado de Goiás.
Hoje não quero entrar no mérito se OSs são boas ou más, quero falar de um problema muito maior e menos visível. A falta de dialogo entre comunidade e os gestores das politicas educacionais.

A culpa seria de quem? Quem não é a parte que falta nesta equação? Seriam as perguntas mais obvias, porém as mais difíceis de responder. Acusamos o governo por ser impositivo e querer implantar tudo de cima para baixo, mas nossas politicas são assim por um motivo obvio, como população nós desde sempre nos comportamos como gado no pasto. Nos movemos quando somos “tocados de um lado a outro” nem sempre pela mesma pessoa.

Quando nós consentimos ser conduzidos? Quando não conhecemos a associação de bairros do setor no qual moramos, por exemplo. Como podemos morar 5, 10, 30 anos no mesmo lugar se não nos reunimos com nossos semelhantes para resolver problemas pertinentes a rua na qual moramos, a praça próxima a nossa casa, ao canteiro da rua… ????

Reclamamos de buracos que abrem na nossa rua ano após ano na época das chuvas, mas nunca nos reunimos com os nossos vizinhos para discutir o problema e buscar uma solução em coletivo (uma andorinha só não faz verão) Não sabemos qual o representante politico ligado a nossa comunidade porque nos recusamos a viver em comunidade. Queremos sair de casa cedo para trabalhar e voltar para ela a noite depois do trabalho sem nos preocupar com o que acontece ao nosso redor.

Temos filhos, queremos que frequentem boas escolas – no nosso bairro tem escolas estaduais e municipais. Estas escolas tem conselhos de pais. Quantos pais de fato participam? Quantas reuniões no ano foram para discutir o projeto politico pedagógico da escola? O usos das verbas que vem para estas escolas? O que a comunidade pode fazer por essa escola para melhorar as condições físicas e disciplinares? Mais fácil que pensar em tudo isso é pagar caro em uma escola particular por um ensino de qualidade.

As OSs na educação no estado de Goias são o fruto desta situação de comodismo da comunidade. Pais não querem se envolver diretamente com a educação dos filhos, querem delegar toda a responsabilidade para alguém. Quem tem dinheiro delega para a escola particular, quem não tem quer empurrar tudo para as costas da escola pública. A escola não é uma estrutura independente da comunidade, ela precisa de uma participação ativa para florescer.  Na falta desta participação da sociedade é claro que o Estado vai tomar decisões importantes de forma unilateral.

Não sou contra os protestos ou contra as ocupações, mas sinto que são chorar sobre o leite derramado. È lutar contra um sintoma do câncer que vem consumindo nosso sistema educacional ao invés de atacar a doença.

Também não suo a favor de decisões autoritárias, sou a favor do dialogo entre estado e comunidade. Mas como estabelecer o dialogo, se como professora, tenho visto os maiores interessados (pais de alunos) se esquivarem de seu papel dentro da escola. Eu espero sinceramente que esta onda de movimentos que nasceu em oposição as OSs da educação sirvam de ponto de partida para que em um futuro próximo a escola não seja um depósito de jovens para os pais trabalharem, mas parte integrante das comunidades.

O único jeito de de fato melhorar a educação é a gestão participativa, mas ela só vai acontecer quando os conselhos de pais deixarem de ser fictícios e tonarem-se de fato elementos integrantes  que não só fiscalizem a atuação de gestão e professores, mas que dê suporte para a atuação dos mesmos. Não podemos esperar que o governo resolva todos os nossos problemas como num passe de mágica. Isso não existe e quando agimos assim estamos dando sim carta branca para que sejam feitas mudanças sistemáticas a nossa revelia.

Gente, não estou defendendo Marconi ou governo nenhum. Estou me posicionando de forma racional. Quem melhora a sociedade somos nós, os membros dela, mas só podemos fazer isso se deixamos de sermos preguiçosos e começarmos a participar ativamente. Fazer cartazes e bater panela não é participação ativa. Participação ativa está no dia a dia, nas pequenas coisas como não estacionar em fila dupla ou em local proibido, em respeitar limites de velocidade, em uma vez por semana ou a cada quinze dias reunir com os membros do bairro para de fato reivindicar iluminação, asfalto, segurança…. Vejo que pessoas que moram em condôminos fechados e em prédios sabem mais de participação em comunidade que quem mora em setores tradicionais, isso porque nos condôminos, em função das taxas todos veem-se obrigados a participar das decisões.  Por que podemos agir assim em função das taxas e condomínio e não em relação aos impostos que pagamos?

Uma associação de bairro exigir melhorias é mais eficiente que uma só pessoa oferecer denuncia ou reivindicar qualquer coisa.

Vizinhos que se conhecem formam uma comunidade mais segura que vizinhos que passam a vida como estranhos. Isso porque a medida que nos conhecemos nos tornamos mais atentos a movimentos estranhos na comunidade, nos preocupamos não só com os nossos filhos, mas com os filhos dos nossos amigos e conhecemos melhor sua realidade de modo que uma mudança de comportamento posse ser detectada antes que tome rumos ilícitos.

Comunidades que interagem tem maior incidência de eventos como feiras, festas tradicionais…. maior participação em eventos escolares. Estes podem parecer eventos pouco importantes para temas como educação e segurança, mas não são. São eventos que consomem tempo e energia, que unem pais e filhos, amigos, vizinhos e que muitas vezes tiram jovens das ruas. Jovens que poderiam estar se envolvendo com furtos ou drogas, mas que passam a possuir um sentimento de pertencimento a comunidade. É através desse pertencimento a comunidade que desenvolvem-se também as primeiras relações de trabalho no fim da adolescência. Um comerciante vai preferir empregar no caixa do mercado um garoto que ele viu crescer que ele sabe que estuda a um estranho, um empresário vai preferir como estagiário um jovem que ele conhece e sabe ser promissor. Vemos isso nas igrejas (Católica, evangélica, centro espirita) O filho de fulano tem pais conhecidos, participa do trabalho dominical, vai bem na escola, entrou na faculdade… ele pode ajudar na função X fulano de tal que precisa de um funcionário de confiança.

Se isso acontece nas igrejas por que não na escola? Por que a escola não pode ser este espaço de interação se nossos jovens passam mais tempo lá que em qualquer outro lugar? Porque nas ultimas décadas deixamos a escola tornar-se um espaço a parte de nossas vidas. Deixamos de dar importância aos professores e passamos a nos importar com o sossego que e não ter os filhos em casa o dia todo. Passamos a delegar uma responsabilidade que é nossa e agora choramos quando o Estado assume uma postura autoritária, mas ele assume esta postura porque nós permitimos décadas atrás quando nos tornamos preguiçosos e dispersos. Quando nossos bairros deixaram de ser comunidades e passaram a ser amontoados de casas e prédios. Quando paramos de saber os nomes dos nossos vizinhos. Quando sequer sabemos onde fica a nossa associação de bairros e fugimos dos conselhos de pais e alunos. Ou seja, quando ficamos alienados a ponto do Estado precisar nos dirigir.

Espero que esta onda de protestos não seja fogo de palha. Mas, quanto mais olho para eles, mais vejo que com o tempo seus integrantes voltara para a vida normal e continuarão não participando da comunidade. Afinal demanda tempo e energia reunir-se com seus pares em assembleias de bairros. Tenho certeza que muitos acham chato ficar horas e horas discutindo o mesmo assunto, ainda mais no ceticismo político em que estamos imersos. Politica não se faz só no dia da eleição, mas todos os dias. E enquanto não vivenciarmos isso não haverá de fato dialogo entre população e órgãos governamentais.

Não acredito que mudanças venham do dia para a noite, mas acredito que se começarmos participando mais da vida escolar de nossos filhos e sobrinhos as coisas podem começar a mudar em uma ou duas gerações.

 

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