Gostaria de falar de algo que tenho observado. Nós brasileiros estamos pouco a pouco adquirindo o habito de ler o rotulo daquilo que consumimos. Ainda que este hábito esteja mais concentrado em determinados nichos de consumo eu vejo como um avanço positivo visto que temos sido alienados pelo consumo de “Marcas” desde que me entendo por gente.

Como assim alienados pelo consumo de marcas?

Eu explico. Nosso país sempre foi um país de analfabetos, semi analfabetos e agora analfabetos funcionais. Sempre perdurou a diferenciação entre produto de rico e produto de pobre e no meio a classe média que aspirava consumir os produtos “nobres” mas que na maior parte do tempo precisava se contentar com os “intermediários” ou as “sacoladas vinda do exterior.”

Nesse contexto a qualidade de um produto não era pelos seus componentes, mas se pertencia a marca X ou se era importado.

Não estou dizendo que produtos que tenha marcas famosas ou conhecidas ou caras sejam ruins. Estou dizendo que as idolatrávamos por seu custo muito mais que por sua qualidade. E muitos de nós ainda comportam-se assim – porque dá status.

No entanto, contra essa corrente a nova classe média, composta de filhos cujos pais pertenceram as classes C e D, e que apesar das melhorias no padrão de vida não tem dinheiro para sustentar o consumo desenfreado de marcas caras, são membros da velha classe média em busca formas mais saudáveis ou ecologicamente corretas de consumo. Estas pessoas estão no caminho de um consumo mais consciente que busca conhecer a própria necessidade antes de comprar e que – PASMEM – LEEM RÓTULOS DE PRODUTOS.

Para muita gente ainda é estranho e desnecessário ler o rotulo, já que a propaganda disse que o produto tal faz isso. Ou porque pelo preço x tem que ser saudável mesmo. Mas não é bem assim que a coisa funciona. O produto caríssimo pode ser bom mesmo, mas para o cabelo x, para a pele x, para pessoas diabéticas, etc…

A partir deste novo habito velhos baratinhos que eram desprezados nas prateleiras de mercados estão sendo redescobertos, as vendedoras, treinadas para os oferecer os produtos que bancam cursos ou gratificações estão ficando sem espaço de ação, porque não conhecem de verdade os produtos que vendem. Conhecem a propaganda que foram ensinadas e ensaiadas a repetir como papagaios de pirata.

Estamos aprendendo a conhecer as necessidades de nossos corpos e de nosso ritmo de vida. Então quando entramos no mercado e optamos por um produto sem gluten, ou sem açúcar, ou que contenha mais fibras, não o fazemos mais apenas por modinha. Quando nos deparamos com o mundo de conservantes que podem ser cancerígenos e optamos por reduzir seu consumo e passamos a ler as embalagens ficamos chocados.

Mas não nos damos conta da importância do habito de ler. De como este pequeno e silencioso habito está nos modificando aos poucos. E para melhor. Não é uma tomada de consciência que cause uma revolução imediata nas formas de consumo, mas que já vem impactado as industrias alimentícia e de cosméticos. É algo pelo que países como Estados Unidos e Inglaterra, Alemanha, etc… passaram décadas atrás e nós passamos agora, a passos de tartaruga, e com uma educação em letramento extremamente insatisfatória.

Para muita gente pode parecer banal que mulheres – brancas e negras – estejam indo a lojas de cosméticos e passando horas lendo rótulos e até mesmo optando por trocar produtos renomados por vinagre de maçã (atual modinha?!). Mas é um sintoma de que estamos sim caminhando para um pensamento mais critico. Isso porque pela primeira vez estamos refletindo sobre o que colocamos em nosso corpo e estamos começando a ir além do custo dos produtos, estamos vendo seus componentes e nos preocupando em como afetam nossa saúde.

Ler é algo poderoso, especialmente ler criticamente.

É tão poderoso que a industria começa a reagir contra este novo comportamento introduzindo em seus cosméticos os produtos de receitas caseiras como oliva, vinagre de maçã e retirando de diversas fórmulas sulfatos mais agressivos ou criando linhas inteiras para esta nova demanda.

Sempre houve  uma grande lacuna em questão de qualidade na industria nacional voltada para o mercado interno. Mas com esta mudança de comportamento acaba havendo sim uma melhoria nos padrões de produção nacional, criando produtos melhores e mais competitivos no mercado interno que começam a competir com marcas consagradas pelo fato simples de que apesar da qualidade as necessidades da brasileira não são as mesmas da mulher europeia ou americana.

O nascimento de uma demanda mais consciente, gera uma industria mais voltada para a qualidade – não por vontade própria, nem por bondade, mas pela busca do lucro. O empresário entender o poder do mercado nacional é uma mudança de paradigma e que exige uma mudança de mentalidade que vai muito além do ato de ler rótulos, mas que começa com a leitura – de mundo – critica. E é refletida e mais do que apenas o comércio, mas na forma de produção e na mentalidade de produção. Pode ser o primeiro e tímido passo para sair do “Ganhar o máximo com o mínimo esforço.” para “Fazer o melhor produto que eu puder para fidelizar meu consumidor e garantir lucro contínuo.”

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