Mais do mesmo – Ainda falando de violência contra a mulher

Bom dia!

Eu não gostaria de falar de violência. Sério, preferia falar de ficção, de coisas amenas, de futilidades … mas não me parece possível quando a violência permeia tantos aspectos de nossas vidas que chegamos a achar normal.

A verdade é que tenho pensado muito sobre isso – como sempre digo não me considero feminista – não gosto de rótulos, mas respeito e admiro a luta que quem faz da busca por igualdade e respeito seu objetivo de vida.

Não sendo feminista ainda sou mulher, posso não ter o engajamento para levantar uma bandeira, mas sou qualificada para ficar triste e indignada quando vejo como a sociedade conduz temas como estupro e violência contra a mulher.

Tenho acompanhado o caso da garota que foi estuprada – digo estuprada sim independente do modo como tentem desqualificar o caso, independente dela ter dito sim foi estupro pelo simples fato dela estar drogada.

O que me choca é que seres humanos (não digo apenas homens com o tal pênis no meio das pernas, mas seres humanos no sentido amplo do termo) achem que outro ser humano drogado pode se considerado consciente de suas ações, que achem que sexo desta forma possa proporcionar algum tipo de satisfação.

Quando eu penso em sexo eu penso em respeito mútuo, afinidade, penso em consentimento e prazer mútuo. Não consigo associar sexo a violência como forma de prazer físico e/ou psicológico. E por isso sempre que vejo a forma como o caso tem repercutido o sentimento que me toma não é revolta, mas uma profunda tristeza.

Tristeza por nós enquanto sociedade, e enquanto nação. Como espirita kardecista fui condicionada a acreditar que tudo no universo está em constante evolução, incluindo nós seres humanos e nossas sociedades, e não apenas em evolução intelectual, mas em evolução moral/espiritual. Somos levados a ver este mundo como um mundo de provas e expiações, mas em transição para um mundo regenerador. No entanto o  modo a violência está normalizada e institucionalizada me faz repensar este conceito.

Como podemos ser melhores que os fundamentalistas islâmicos (e terroristas como o grupo ISIS), se achamos normal que uma mulher drogada seja objeto de 30 homens. Independente que ela tenha – neste estado dito sim – como pode um ser humano achar que era lícito usar o corpo dela como mero objeto de prazer. Como podem outros tantos seres humanos verem este tipo de animalidade e dizer que “está tudo bem por causa do passado dela” ???????????

O modo como essa garota está sendo tratada é apenas  a ponta desse iceberg. È o ápice de uma ideologia em que não respeitamos nossos semelhantes, em especial se forem mulheres. Não somos tratadas como cidadãs de segunda classe, mas como pessoas de segunda classe. Sem direito a existir por nós mesmas, sem obrigadas a existir em função dos desejos e necessidades de outro – pai, marido, filho, namorado.

Sendo solteiras não temos direito a dizer não em uma festa, show ou boate, porque presume-se que homens podem sair com os amigos sem qualquer objetivo extra, mas mulheres não. O fato de sairmos à noite parece nos colocar obrigatoriamente a disposição como se fôssemos objetos a espera de ser reivindicados e não pessoas.

Onde está a evolução da sociedade nisto? Será que somos melhores que as pessoas da idade média quando mulheres eram queimadas como bruxas apenas por serem mulheres? Temos mais tecnologia, grandes avanços científicos, mas continuamos tão brutos quanto o homem medieval que tratava as filhas irmãs e esposa como objetos, mercadorias a serem trocadas ou descartadas e não como criaturas tão humanas, dotadas de intelecto, sentimentos e desejos como eles próprios.

Homens e mulheres na nossa sociedade propagam a ideia de que uma vitima de violência sexual é sempre a culpada. Busca-se os antecedentes da vítima apenas para desacreditá-la enquanto os agressores ficam livres para repetir e vão repetir o ato. Não tenham dúvidas disso.

Quando vejo os rumos da nossa sociedade – um misteriosos regidos apenas por homens, uma ideologia que barra a representatividade feminina, o avanço da popularidade de homens como Bolsonaro que fazem apologia (abertamente) ao estupro e a misoginia eu acho que é mais fácil de fato não por filhos neste mundo. Apesar de toda a ideologia espirita sobre evolução, resgate das faltas de vidas anteriores é difícil acreditar que o ser humano está de fato tornando-se melhor quando achamos normal que um grupo de pessoas use outro individuo como se fosse um mero objeto e quando a sociedade aplaude isso.

Estupro não é só sobre os direitos das mulheres, é sobre o caráter humano. Sobre respeitar o semelhante, ou se afirmar sobre ele. Uma pessoa que precisa dominar o outro para satisfazer a si mesma ainda está presa à barbárie, ainda é uma alma embrutecida escondido sob o verniz da sociedade. É o tipo de coisa que se esperaria dos escravocratas da época do império quando o Brasil era resumidamente escravagista e pessoas eram posses tanto quanto cavalos e carroças, sujeitos aos maus tratos de seus senhores apenas por um prazer cruel e bárbaro.

Estupro está não na afirmação da masculinidade, porque um homem seguro de si não precisa forçar uma mulher, ele conquista. A ideia de ter prazer no sofrimento alheio é muito mais prova de fraqueza, de necessidade de sentir-se mais do que realmente é, é prova de deturpação de caráter. Um homem que estupra é um homem capaz de torturar qualquer um (homem, mulher ou criança) que ele julgue mais fraco, ou de condição inferior.

O fato de praticar um estupro coletivo implica no fato de juntos estes indivíduos julgarem-se superiores que as leis que devem reger a sociedade, julgarem-se juntos como melhores que qualquer noção de respeito ao próximo visto que em grupo tem força para fazer o que não seriam capazes individualmente. Pense que outros crimes eles podem ainda praticar juntos, ao ter a certeza da impunidade? E o modo como permitimos que saiam impunes valida total e completamente estas premissas.

Mais chocante é que estamos ensinando aos nossos jovens o seguinte.

  1. Que sexo com uma mulher que esteja dopada não é estupro.
  2. Que a vítima é sempre culpada. (sempre haverá uma justificativa para o comportamento animalesco do homem – pode ser a roupa que ela estava usando, o fato de ter passado por tal lugar tal hora, ter nascido…)
  3. Não se espera que homens refreiem seus desejos e instintos.
  4. Mulheres são como objetos, você pode possuir, abusar, ferir e até jogar fora para pegar outro modelo ou um modelo mais novo.

E diante destas ideias queremos uma sociedade mais honesta e menos violenta? Pouco provável que se consiga acabar com corrupção em um país em que não se ensina que respeito não é seletivo, ele deve abranger a todos. Que regras não são para alguns cumprirem, mas sim para todos. Temos que ensinar que é errado agredir o semelhante seja ele hetero ou homossexual, homem ou mulher, branco ou negro,  porque são todos seres humanos na mesma medida. E que beijar a força, passar a mão, encochar no coletivo, são agressões tanto quanto um tapa, um soco, um murro, um chute… e até pior que isso.

Devemos parar de ensinar que uma mulher não deve reagir a uma agressão. Devemos ensinar que uma menina deve se defender quando for tocada contra a vontade, que pode gritar e se defender sim. Que não é culpa dela, que porco, nojento, criminoso é agressor e não a vitima.

Com todos estes comportamentos que nos objetificam e nos desqualificam como seres humanos por sermos mulheres e que tiram de nós o direito sobre nossos corpos sinto que não somos melhores que povos ditos primitivos, somos piores. Temos o conhecimento, mas o ignoramos, temos tecnologia e nos escondemos atrás dela para repetir os mesmo comportamentos que um homem medieval. Recitamos valores éticos e morais, nas não os aplicamos.

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