Cresci em lar espirita desde os meus 9 anos de idade. Aprendi desde cedo que o Brasil seria a pátria do evangelho. Que as equipe espirituais atuam para que sejamos um celeiro de solidariedade para o mundo, que por isso temos aqui a rara combinação de judeus e palestinos que convivem em paz etc…

Quando se é criança ou adolescente é fácil acreditar, mas a medida que o tempo passa fica cada vez mais difícil não questionar nossa vocação para a solidariedade.

Como podemos ser um celeiro de amor ao próximo quando nos afundamos em todos os tipos de corrupção. É um estranho paradoxo que sejamos capazes ser tão bons e tão absurdamente egoístas ao mesmo tempo.

Digo que somos bons porque vejo dia a dia nas igrejas, centros espíritas, centros de umbanda, etc pessoas tentando sim ser melhores dia a dia. Vejo pessoas se dedicarem a trabalhos de caridade, mas vejo estas mesmas pessoas acharem certo estacionar em fila dupla, ocupar vaga de idoso, levar vantagem na fila de algum serviço publico. Ações que são pequenas, pontuais, mas diárias e que revelam o profundo egoísmo enraizado em nós.

Falamos em amor ao próximo, mas colocamos nossas vontades e necessidades em primeiro plano independente se isso fere o direito do nosso semelhante. E foi esse padrão de comportamento – de levar vantagem – que  nos fez eleger todo este colegiado do qual nos envergonhamos tanto.

Temer não brotou do nada. Ele era um vice decorativo em uma eleição polarizada entre duas péssimas escolhas. Dilma e Aécio. Eu votei na Dilma, por não ser capaz de votar no Aécio, entre os dois ele me parecia muito mais absurdo, obtuso e cínico. A verdade é que eu não queria ser obrigada a escolher entre nenhum dos dois, mas o segundo turno nos deixou nenhuma outra escolha.

Bem, uma vez que Aécio perdeu a bocada começou a guerra entre as cobras dentro e fora da base. Uma guerra movida a um egoísmo brutal e desumano, e dentro daquela que devia ser a Pátria do evangelho.

Nos altos escalões do poder, pessoas que tem tanto dinheiro que nem sabem o que fazer com ele (além de ostentar) lutam por mais dinheiro do que são capazes de gastar e por poder.

Não creio que seja capaz de compreender o fascínio que o poder exerce sobre as pessoas, ou  desejo de estar por cima do semelhante. Vejo posições de poder como uma obrigação moral de fazer o melhor para garantir a qualidade de vida na sociedade como um todo, ou seja como uma posição de subordinação a obrigações práticas e morais, e não como fora de subjugar o meu semelhante.

Nossas classes politicas com certeza tem uma visão radicalmente oposta a minha. Mas tal forma de pensamento não é exclusividade de Aécio, Temer, etc… É  na verdade o padrão dominante da mentalidade do nosso país. Uma mentalidade que não superou o ranço do colonialismo  e do escravagismo. Ainda temos o habito de objetificar os nossos semelhantes. Temos a tendência de não tratar como ser humano aqueles que não fazem parte do nosso circulo de convencia, bem como aqueles que não pertencem a nossa classe socioeconômica.

Essa mentalidade de estrutura piramidal criou pobres que comportam-se como se fossem ricos senhores de engenho. (parece ridiculamente absurdo, mas é a verdade.) Não queremos limpar nossas próprias casas, queremos a mucama( de preferência negra porque achamos que serviço para negro é o domestico) queremos a serviçal obediente que limpe nossa bagunça, lave nossa roupa, nos diga como somos maravilhosos e lindos e que ainda fiquem felizes por ganhar uma miséria.

Como podemos querer ser a pátria do evangelho do Cristo se agimos como os senadores romanos? Como podemos querer uma politica ética se nos recusamos sequer a ver o quanto anti éticos nós somos?

Cresci escutando sobre a importância da reforma intima, mais do que nunca precisamos dela. Precisamos ser menos egoístas e participar mais ativamente da nossa comunidade. Devemos aprender a nos preocupar mais com o coletivo e participar mais das decisões nos nossos bairros.

Sempre falo da importância das associações de pais e alunos na escola, das associações de moradores nos bairros. Dos grupos de igreja que interajam com a comunidade. Não estou dizendo que devemos surrupiar as obrigações do estado, estou dizendo que o correto funcionamento da maquina pública começa assim.

Precisamos urgente de amor ao próximo para que nosso país não mergulhe nas trevas da violência.

Agora que passamos pelo processo de impeachment o leite foi derramado, É UM FATO ,  e o triste não foi a saída de Dilma, mas a legitimação da corrupção e das relações de poder em detrimento da sociedade.

O triste é a vitória do egoísmo em toda a sua brutalidade. O triste é que nó legitimamos  dia a dia com nossos atos e achamos que está tudo bem.

Houve uma época – não tão no passado assim – 2013 está logo ali – que acreditei no clamor das ruas. Hoje vejo as manifestações com profundo ceticismo.

Vejo dois lados – um de cidadãos que de fato querem manifestar sua indignação e a eles dou meu apoio e solidariedade – e outro lado que se aproveita para destruir, ferir e roubar e destes não sei se sinto pena ou nojo.

A violência pela violência não melhora a vida de ninguém, basta ver o regime Talibã – a brutalidade só gera perda de credibilidade, de respeito, de força. Destruir lojas não é manifestar, é destruir o ganha pão de nossos semelhantes, é de um egoísmo tão brutal quanto o que move Cunha e seus associados.

Acredito que eu tenha sonhos de utopias tupiniquins – nestes sonhos protestar é um ato coerente e pacifico com a força que tiveram os protestos de Mahatma Gandhi e sua revolução pacifica que libertou a Índia do imperialismo Inglês. Claro que a Índia tem ainda tem uma série de problemas socioculturais e socioeconomicos para resolver- não se sai impunemente de um sistema colonialista que limitava o acesso a educação para melhor controlar as massas.

A ignorância é mãe, amiga e irmã do egoísmo, o fortalece e endurece o coração contra o amor ao próximo. A ignorância e a alienação politica e econômica são as armas daqueles que “tem mais do que precisa ter
Quase sempre se convence que não tem o bastante
Fala demais por não ter nada a dizer” ( Renato Russo)

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