Amor ao próximo parece ser o maior desafio da humanidade desde os primórdios da civilização. Ao redor do mundo ainda temos pessoas capazes de ver outro ser humano como objeto, como mercadoria, como alguém inferior por sua cor da pele, por ter nascido em um circulo social diferente, por ter ideias diferentes, por ser mulher….  Esperava-se que 2000 anos depois da mensagem de amor de Cristo, que (cristãos ou não) tivéssemos aprendido que outro ser humano independente de qualquer coisa é nosso semelhante.

Mas ao invés disso parece que estamos usando a tecnologia como desculpa para nos desumanizar, para fechar cada vez mais nosso circulo ao invés de abri-lo.

É estranho que tenhamos o mundo ao toque de nossos dedos em telas de Smartfones , redes sociais como Facebook que podem nos conectar a colegas que escola que não vemos a décadas, descobrir parentes distantes, manter contato com amigos que moram longe e apesar de toda a revolução tecnológica o ser humano parece voltar-se mais para o eu.

Esta volta para o eu não é subjetiva, não se relaciona ao auto conhecimento, é uma adoração de si mesmo mais no estilo de Narciso – que acha feio tudo que não é espelho.

As pessoas não estão de fato apaixonadas por si mesmas – porque se fosse o caso seria até saudável – estão apaixonados por uma imagem retocada e irreal de si mesmos. Um reflexo feito por Afrodite, no qual todos somos mais bonitos, felizes e carismáticos.

A self viralizou de tal maneira que que a maioria de nós parou de olhar ao redor. Me lembro que até bem pouco tempo atrás, antes das maravilhosas maquinas digitais, quanto tínhamos filmes de 12, 24 ou 36 poses tirar foto era um ato mais coletivo. Registrava-se mais momentos em grupo que individuais, a medida em que a foto foi ganhando outros espaços elas foram mudando também. De eventos e lugares importantes passamos a fotografar trivialidades e quando a self ganhou de vez os celulares nos voltamos para nós mesmos de um modo nunca visto antes.

A self para muitos de nós é o império do eu, o eu superficial que sempre sorri e está sempre feliz, sempre na festa, no churrasco, na piscina, na viagem. O eu que tem que sair sempre bem para receber likes e curtidas.

Neste sete de setembro estive no Parque Flamboyant no fim da tarde – o lugar estava lindamente cheio. Pessoas caminhavam, estendiam mantas sobre a grama, passeavam com cachorros e quase todos ficavam horas tirando selfs nas mais diversas posições  e o mais impressionante é estas pessoas ao invés de aproveitar a beleza do lugar estavam muito mais preocupados com o angulo do próprio rosto. Enquanto fotografamos a nós mesmos quantas coisas deixamos de ver ou perceber ou apreciar?

Eu que sempre gostei de fotografia não vou negar que curto – e muito – uma self, mas na maior parte do tempo não acho que seja vantagem estar inserida em uma fotografia. Há paisagens que são belas por si só, há imagens que falam muito mais sem o nosso rosto estampado nelas. Há instantes simples que podem até tornar-se um belo conto, se olharmos pelo angulo certo.

A fotografia tem o poder de nos fazer criar histórias, de nos tornar co-criadores da imagem que vemos por suscitar a nossa imaginação apelas pela escolha de uma determinada luz, de um determinado ângulo, de um certo ponto de vista. Temos hoje em nossas mãos, em nossos celulares e câmeras comerciais muito mais possibilidades que os velhos filmes fotossensíveis, mas estamos tão preocupados com o ângulo certo do nosso rosto que esquecemos de olhar o mundo e olhar para os outros. A medida que não olhamos em volta desumanizando nossos semelhantes.

A media em que não nos inserimos no mundo, mas sim em fotos do que queríamos ser, estamos esquecendo que a beleza do mundo depende de nós, que compartilhar os bons momentos com outras pessoas é mais gostoso que mostrar bons momentos individuais. Quando olhamos só para nós mesmos deslumbrados com a beleza da nossa face sob determinado efeito estamos perdendo a chance de ver a nossa volta. Estamos nos alienando para situações reais, como o fato de que a nossa democracia está ruindo, que os estratagemas de Aécio, Cunha, Temer, etc continuam fazendo nossa politica mover-se para um lugar sombrio. Que ideias de fachada como os de Bolsonaro estão crescendo como um câncer e incentivando a intolerância. No império do “Eu pareço” estas coisas vão tornando-se pequenos ruídos que abafamos com um sorriso para a câmera. Enquanto estamos preocupados em “parecer que somos” “imagesparecer que temos” estamos objetificando o nosso semelhante que não pertence a nossa calasse social ou ao nosso circulo social pois precisamos de pessoas coisificadas para fazer a parte prática da vida – limpar nossa casa, lavar nossos carros, produzir renda para que possamos perder nossas vidas diante da imagem de Narciso. Precisamos manter uma estrutura social estamental para manter os privilégios.

Então me pergunto qual o sentido de ser “privilegiado” se no final tudo que resta é a solidão de Narciso que morreu afogado no próprio reflexo? Pergunto isso porque recentemente conhecia uma série de pessoas muito bem posicionadas na piramide social   e suas vidas embora regadas a festas e tudo mais me pareceram tão vazias quanto a minha ou até mais. Com tantas coisas a usufruir eles passam de uma relação sexual para outra como se as parcerias envolvidas não passassem de meros brinquedos a serem usados e descartados.

Coisificar o nosso semelhante seja homem ou mulher, branco ou negro, hétero ou homossexual, se é cristão, budista, muçulmano, etc… nada justifica reduzir outro ser humano a algo menos do que nós mesmos somos. Mas fazemos isso de forma cada vez mais fácil quando adoramos a nós mesmos em um pedestal à cima dos sentimentos dos nossos semelhantes .

A self não é o monstro aqui, mas é um sintoma do egoísmo que tem corroído a humanidade. Um sintoma de que cosias boas podem ser transformadas em lugares sombrios em nossas almas sem percebermos.

Quando eu estava no parque brincado de tirar fotos havia um pensamento recorrente – Gostaria que o prazer de usufruir de lugares assim não fosse um privilégio para alguns – isso porque mesmo os parques sendo áreas públicas o trabalhador médio não tem tempo, ou disponibilidade, ou conhecimento de que pode desfrutar sim de bons momentos nestes lugares. Momentos que seriam fundamentais na manutenção da saúde física e mental. – Fico feliz com iniciativas como o piquenique no Jardim Botânico, e os projetos de orquestra nos parques, eles tem tirado as pessoas da bolha de individualismo e espero sinceramente que haja mais e mais eventos assim na cidade.

Apesar dos projetos referidos serem como um oásis na aridez cultural do nosso dia a dia, eles ainda são usufruídos por uma parcela muito pequena da população de Goiânia, uma parcela mais escolarizada e que não trabalha apenas por subsistência. A parcela não coisificada da sociedade.

Anúncios