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Para muitas de nós a vida é uma jornada pela floresta escura – açoitada pelos espinhos do caminho – a espera da luz que dissipará escuridão 

Um canal de televisão do Marrocos causou controvérsia e irritou ativistas do mundo todo ao ensinar mulheres a “disfarçar” feridas e hematomas, frutos da violência doméstica.

Em um “quadro especial” de maquiagem no Dia Internacional da Violência Contra a Mulher, comemorado no último dia 25, o canal estatal de televisão “2M TV” contratou uma profissional para demonstrar em uma modelo como cobrir os hematomas da região do rosto.

“É um tópico extremamente delicado, mas ensinaremos às mulheres como cobrir os sinais de espancamentos”, disse a apresentadora do programa, sorrindo.

O episódio incitou a reação furiosa de ativistas ao redor do mundo que passaram a acusar a emissora de incitar a violência doméstica.

Fonte: Último Segundo – iG @ http://ultimosegundo.ig.com.br/mundo/2016-11-29/violencia-mulher-marrocos.html

O fato de ficarmos chocados e mesmo revoltados com isso demonstra tanto nossa solidariedade quanto nossa hipocrisia. Estamos vendo mulheres serem atacadas nas redes sociais por sua opinião a cerca do aborto e agimos como esta apresentadora, não nos importamos com a causa do problema- só com o resultado final.

Somos hipócritas em pensar que o modo como tratamos uma mulher chamando-a de puta e condenando o fato de não querer ter filhos porque isso também é uma violência – porque ao invés de condenar com um apedrejamento virtual devíamos sim buscar entender os motivos de tantas mulheres arriscarem a vida fazendo aborto.

Muitas mulheres que buscam abortar não são putas, não são vagabundas são seres humanos, muita vezes em um momento de desespero seja porque sofreram violência sexual (uma menina de 11 anos grávida com certeza não pode ser responsabilizada, uma namorada, uma esposa que não diz não ao parceiro com medo de ser agredida físcia ou psicologicamente) ou mesmo uma mulher que se vê apavorada sem apoio familiar, julgada pela sociedade por ser mãe jovem ou mãe solteira… há centenas de motivos que causam sofrimento suficiente para uma mulher achar que vale mais arriscar a vida a ter o filho. Então pegamos essas mesmas mulheres que crucificamos por engravidar e crucificamos por abortar – ou seja a reduzimos a menos que seres humanos. Será que nesse contexto somos melhores que essa emissora de TV que alegremente ensina a maquiar hematomas e violência doméstica? Somos menos hipócritas? Menos brutais?

Não sou a favor do aborto, mas sou radicalmente contra criminalizar uma mulher por agir por desespero. Acredito o modo como tratamos o corpo feminino é de uma brutalidade absurda – não temos direito a querer ou gostar de sexo, não temos o direito de dizer não aos nossos namorados/maridos, não temos o direito de ser mães independentes sem sermos julgadas e condenadas e não temos o direito de não querer ser mães porque o nosso corpo não nos pertence, pertence a sociedade que nos vê como objetos sexuais, brinquedos para o prazer dos homens, empregadas domésticas, reprodutoras.

Acredito que legalizar o aborto não é incentivar o aborto, mas parar de brutalizar a mulher, dar um espaço neutro onde ela possa refletir com apoio profissional e muitas vezes desistir, ou se decidir levar a fim a gravidez, não morrer por isso e nem ser descartada em um lixão.

Ser contra o aborto é muito mais que covardemente chamar quem aborta de puta ou dizer aquele horrível chavão “na hora de abrir as pernas estava bom né.” Será mesmo que estava bom mesmo???

Ser contra o aborto é facilitar o tramite de adoção, é dar apoio psicológico as mães que por algum motivo não querem ou não podem criar a criança. É exigir que o homem também tenha responsabilidade porque nenhuma mulher faz filho sozinha e homem certamente teve prazer no ato. “Para eles sempre é bom e quase sempre sem o ônus da responsabilidade.” Ser contra o aborto é parar de apedrejar e estender a mão, é apadrinhar aquela criança que você não quer ver morta, é respeitar que embora seja um ser vivo ela está sendo gerada dentro de outro ser humano, com todos os medos, duvidas e angustias que pode acometer nossa espécie. Ter uma vida crescendo dentro de você não é uma experiência simples, não é lindo e romântico como tentam fazer parecer a gravidez.

A gravidez tem seu lado lindo e mágico, mas tem seu lado cruel também, o corpo da mulher se altera de modo quase brutal e passar por isso sem apoio e sem respeito sim pode levar muitas mulheres ao desespero de querer abortar, a depressão durante a gestação e após o parto. Muitas mulheres que optam pelo aborto clandestino estão tão quebradas emocionalmente que consideram morrer uma alternativa melhor que viver com aquela vidinha crescendo dentro de si. E nós apedrejamos essas mulheres – isso não é campanha contra o aborto, é total falta de solidariedade.

Haveria muito menos abortos no mundo se não houvesse tantas mulheres sentido-se acuadas, julgadas e massacradas, e mesmo havendo o aborto haveria-se menos mortes e menos casos de infertilidade por hemorragia e infecção.

Mesmo quando o aborto é legalizado ele tem consequências, como todas as nossas escolhas nesta vida, mas quem deve decidir se vai arcar com as consequências de abortar ou de ter a criança deve ser a mulher, porque é sobre ela que recai o peso de qualquer destas decisões.

Abortar deixa sim uma marca para a vida toda e ninguém precisa que isso lhe seja jogado na cara a dia a dia. Atitudes como a que tenho visto no Facebook e outas mídias são exatamente como este programa sobre maquiagem que faz parecer normal que a mulher seja espancada em casa.

 

 

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