Faz alguns dias que venho republicando alguns blogs que sigo e tentado pensar em como colocar em palavras a inquietação que tenho sentido nos últimos tempos.

Quem me conhece sabe que sou amo ficção – literatura, séries, filmes – acho que exagero em tudo que gosto – bem, as vezes a ficção e a vida parecem compartilharem certas nuances sombrias. Esta semana eu estava vendo aquela série The Blacl List, não acho das melhores, mas em dado momento me chamou a atenção um personagem cuja a ocupação era fomentar a desinformação. Embora tenha achando o episódio do seriado meio chatinho a ideia ficou na minha cabeça por conta do momento que vivemos.

Já faz um tempo que tenho visto as redes sociais tornarem-se um festival de Luca santo x Lula demônio, Sérgio Mouro santo x Sérgio Mouro demônio como se o nosso mudo fosse uma história em quadrinhos quem que o bem e o mal ficam bem delimitados. No fim essa polarização maniqueísta me lembrou justamente a estratégia que serviu de pano de fundo para o episódio do seriado. O fato é que a manipulação das mídias, as reportagens tendenciosas não são um fruto da ficção, a ficção apenas se inspirou em algo bem real. Podemos não ter no mundo real uma figura mítica como o personagem Troll Farmer, mas temos nosso próprio cronograma de desinformação. Ele é composto de uma mídia/jornalismo que finge ser imparcial, mas que esta carregado de ideologias e favoritismos, o fato de que não temos o habito de ler, nossa escola é falha em filosofia, sociologia e história, bem como em compreensão textual de  modo que  somos quase todos analfabetos funcionais em maior ou menos medida.

A guerra da desinformação chegou a ponto de neste domingo a maior parte das pessoas não saber para que servia o protesto dos “amarelinhos” se era a favor do juiz Sérgio Mouro, se era contra o Lula, se era a favor da Pec 55 inteira ou fracionada ou se era contra ela como um todo. As pessoas estão confusas e o Facebook tem refletido bem esse caos em posts cada vez mais alienados.

Sérgio Mouro e Lula são seres humanos, com erros e acertos, nenhum dos dois vai nos salvar, mas o modo se olha apenas para eles serve muito bem como cortina de fumaça abafando coisas e situações muito mais graves.

Estamos – como gado – sendo conduzidos para olhar apenas para uma direção, a caminho do matadouro.

Ou como bem observado no filme truque de mestre – os mágicos nos fazem olhar para um lado enquanto a ação acontece do outro. E assim enquanto endeusamos um e demonizamos o outro Temer e sua corja fazem votações em beneficio próprio na calada da noite, repassa nossos recursos mais valiosos, para empresas e empresários estrangeiros e assassinam a democracia.

Em 2013 eu tinha esperança que grandes mudanças viessem por aí, cheguei a desejar que nossa política chegasse ao fundo do posso para ver se a sociedade dava uma guinada – Mal sabia eu que o fundo do posso nos faria chafurdar na pior lama – Afinal por mais ache que sei algo de politica e economia a verdade é que nada sei, estou no meio da massa que tenta não se afogar na luta dos poderosos que se alimentam de nossa vitalidade e força de trabalho.

O que começou em 2013 com o “não são só 20 centavos” foi pervertido pela nossa imprensa, convertido em instrumento de manipulação de massa. O gigante que queríamos acordar ganhou rédeas e passou a ser conduzido por interesses escusos, que o usaram para tirar Dilma – que já tinha metido os pés pelas mãos, tentaram endeusar Aécio, depois Cunha, e agora Sérgio Mouro e desviar a atenção do fato que a corrupção deve ser combatida não só em uma frente, mas em todas que Sérgio Mouro não vai salvar o país, que ao levar as investigações a frente ele não é um herói é um servidor público cumprindo a obrigação dele, algumas vezes o faz muito bem outras nem tanto.

Não precisamos de muitos Mouros – Precisamos da consciência de que Juízes não são super homens, mas servidores públicos e que deviam estar a serviço da população.

Não precisamos de novas leis para punir o abuso de poder – que de fato existe porque muitos pensam que são Deus – Precisamos fazer cumprir as leis que já temos, precisamos acabar com a cultura do dar um jeitinho. Nosso problema com a impunidade sistêmica não está em falta de legislação, mas na nossa cultura de “para fulano pode” “Só dessa vez”, nossa moral elástica que facilita o acesso para conhecidos, amigos e parentes, em detrimento do correto. Achamos normal ter dois pesos e duas medidas quando isso nos beneficia e achamos absurdo quando nos prejudica.

Eu esperava que nossa mentalidade mudasse depois deste mar de lama. Que nos tornássemos mais solidários, no  entanto que nossa solidariedade estivesse mais ligada ao respeito que a pena, que o nosso ajudar não passe por cima de outras pessoas, que respeitemos o direito de viver de todos os nossos semelhantes ao invés de nos dividirmos considerando igual a nos só quem pertence a nossa cor, classe social, nicho religioso etc….

Na raiz da nossa desigualdade está o fato de que somos adestrados e doutrinados a não nos comprometer. Nosso jornalismo ao invés de deixar sua posição clara se declarando direita ou esquerda finge estar em cima do muro e nos despeja maciça carga ideológica sem nos dar opção de concordar ou discordar, afinal nos ensinam que ter opinião é necessariamente ser comunista, ser gay,  e comer criancinha.

Nosso jornalismo não mostra que nossas politicas estão ligadas a trafico de drogas, trafico de pessoas, especulação financeira – isso porque nunca vemos o quadro todo, estamos muito ocupados ficando em cima do muro e caçando comunistas imaginários. Mas se fossemos menos alienados saberíamos que elegemos homens que já foram investigados por trabalho escravo em suas fazendas por exemplo – homens assim não vêem quem não pertence ao seu nicho social como ser humano. Tem a mesma mentalidade dos velhos senhores de engenho e coronéis. Estamos revoltados com o apoio que Dilma e Lula deram a Fidel, mas temos no nosso congresso, no nosso senado, nas nossas assembleias homens tão ruins quanto ele e que cometem os mesmos barbarismos – matam seja por meio trabalho escravo seja por meio da corrupção levando para o próprio bolso o dinheiro que serviria para manter hospitais, escolas e a policia. Matam de forma ainda mais cruel que Fidel Castro, pois os nossos coronéis não mostram suas caras, escondem-se atrás desse joguinho que a mídia faz mostrando apenas fragmentos de informação. Nos conduzido a um sentimento de revolta seletiva.

Eu esperava que Sérgio Mouro e outros abrissem caminho condenando boa parte destes homens, mas hoje diante do que vejo não tenho certeza do que pensar. Não sei mais para onde estamos indo, temos todos os sinais de uma ditadura civil que vem para privilegiar apenas as velhas oligarquias. Nosso quadro não parece muito melhor do que era nas primeiras lembranças da minha infância na década de 80.

Tivemos 15 anos para sentir o gosto do que é o início de uma qualidade de vida para o cidadão comum, e isso está sendo arrancado de nós pelo fim dos investimentos em educação, saúde e segurança. Estamos contendo gastos do lado errado da sangria, mantendo a corrupção institucional e sacrificando os verdadeiros servidores públicos.

Eu sempre digo que a corda arrebenta do lado mais fraco – Juízes, Parlamentares etc manterão seus salários e privilégios e Professores, policiais, servidores da saúde vão passar fome nos próximos anos.

Hoje quase ninguém quer ser professor, porque não dá para sobreviver apenas dando aulas na rede publica. Estamos adoecendo – depressão, estafa, síndrome do pânico são tão comuns para nossa classe quando sofrer agressões físicas porque um aluno não concorda com a nota. Todo professor tem uma história de agressão para contar, assim como quase todo enfermeiro, maqueiro ou técnico de enfermagem. Policiais nem se fala – ganham nada para arriscar a vida e trabalham mais horas do que o corpo aguenta. E somos nós quem sofremos os cortes enquanto o alto escalão trabalha 2 a 3 vezes na semana, vota matérias em benefício próprio na calada da noite, deixa empresas como a SAMARCO envenenar nosso território impunemente e ignora o desespero da população que tenta unir-se em um clamor por mudanças.

Tenta porque a campanha de desinformação que lançam sobre nós nos divide, nos faz odiar nosso semelhante ao invés de perceber que estamos quase todos no mesmo barco, afundando enquanto enriquecemos aqueles que deviam governar em nosso favor.

 

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