Agora que a data passou vou falar livremente – não estou fazendo campanha contra a data. Acho importante que tenhamos alguns momentos durante o ano para elevar nossos pensamentos ao criador, acredito que estes momentos de prece aliviam a atmosfera tão saturada de egoísmo, guerras, mágoas, corrupção.

O que me incomoda é que do mesmo modo como estes momentos podem ser salutares eles podem tornar-se ferramentas de manifestação do nosso profundo egocentrismo e desamor.

Esta semana estive observando – não sou uma boa observadora então é preciso que as coisas me saltem aos olhos e gritem em meus ouvidos.

Observei a velha  musica que todo ano as emissoras – tão velha que cantamos sem nem pensar

o Natal existe

Natal

Quero ver
você não chorar
não olhar pra trás
nem se arrepender do que faz…

Quero ver
o amor crescer
mas se a dor nascer
você resistir e sorrir…

Se você
pode ser assim
tão enorme assim
eu vou crer…

Que o Natal existe
que ninguém é triste
e no mundo há sempre amor…

Bom Natal um Feliz Natal
muito Amor e Paz pra Você…
pra VOCÊ.

Aposto que ao ler você até cantou mentalmente.

Já observou que “eu vou crer…/Que o Natal existe/que ninguém é triste/e no mundo há sempre amor…

Sempre pensamos nesta cantiga como uma musica bonitinha e otimista – mas no fundo ela nos ensina a fechar os olhos para o sofrimento alheio. Todos os meios de comunicação, se você prestar bem atenção fingem pregar o amor, mas na verdade nos ensinam a fechar os olhos para o sofrimento alheio.

Mostram campanhas de doação de alimentos, cestas básicas, brinquedos, cobertores como se toda a pobreza fosse erradicada em uma noite, e fingindo que este sofrimento que só vemos na véspera do natal não nos cerca todos os dias. A ação de uma unica noite pode aplacar nossa consciência, mas não melhora o mundo, apenas nos impede de pensar sobre isso todos os outros dias do ano, afinal no natal somos bons, fazemos alguma ação social qualquer, damos presentes aos amigos e parentes.  Fazemos ceias opulentas com mais comida do que somos capazes de comer, como se o sentido da data fosse fartar a pança.

Comemoramos o nascimento de Cristo? Comemoramos mesmo? Não estou nem entrando no mérito que sequer sabemos quando ele nasceu. Não me importa que a data seja fictícia, e creio que ele também não se importa com data alguma, creio que o mais importante seja a fé e os sentimentos transmitidos no dia. No entanto quantos de nós estamos de fato elevando nossos pensamentos e sentimentos? Quantos de nós se preocupam apenas com autossatisfação egocêntrica de encher a pança, ganhar presente e tirar fotos para as redes sociais???

Quantos de nós vivem apenas o refrão “eu vou crer…/Que o Natal existe/que ninguém é triste/e no mundo há sempre amor...

Quando no mundo há tanto desamor a ser combatido?

Quer um exemplo desse desamor? Tenho uma avó idosa e com Alzheimer, este ano (como sempre ) nós ficamos com ela no natal e milagrosamente conseguimos leva-la para nossa casa – Há anos que precisamos passar na casa dela porque não sai por nada. Até aí tudo bem. O que me incomoda é que nenhum dos outros filhos se deu ao trabalho de ir visitar ao longo do dia. No Natal sua mãe está idosa e você não vai nem dar um beijo nela? E não acaba aí no domingo só duas das minhas tias se deram ao trabalho de estar com ela e um primo. Isso é espírito natalino? Quando a avozinha era saudável e podia fazer festas por conta própria a casa estava sempre cheia. Dias antes todos se lembravam dela, agora que está idosa, as vezes difícil de lidar cada um cuida de sua própria festa de modo que filhos, netos e bisnetos que já foram tão amados e mimados por ela crêem que  que ninguém é triste/e no mundo há sempre amor..

Mas uma pessoa é triste, uma pessoa pegou na minha mão com lágrimas nos olhos e perguntou “o que eu fiz que meus filhos não gostam de mim?” Minha avó pode ter Alzheimer, mas tem momentos de lucidez em que a solidão é tão grande que eu sinto vontade de chorar e de chutar a bunda dos meus tios e primos daqui até a china. Sabe, não precisava de muita coisa, não precisa que passassem o dia com ela, bastava ligar para dizer eu te amo, ou passar para dar um beijo fosse no dia 24 ou 25. Ela pode não lembrar depois mais os sentimentos de alegria e de tristeza permanecem como impressões fortíssimas.

Um ato de amor pode ser esquecido 5 minutos depois, mas o sentimento que fica com ela a deixa mais calma e feliz o dia todo O sentimento de solidão se prolonga também, ela pode não noção completa do que falta, mas sente o vazio. Quando olho para ela eu penso eu meu futuro não será tão diferente e que a velhice é dos males o mais assustador. Envelhecer é triste e solitário, nossa sociedade não ama pais, mães e avós idosos, em todos os meios de comunicação eles são um peso ou elementos decorativos em uma cena distante de fartura. Colocados no canto enquanto outros festejam.

Nossa sociedade é dissimuladamente cruel.

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