Carnaval, preconceio, religiões, espiritismo

Oiii. (começando este post com uma saudação beeeem adolescente)

Hoje eu queria falar um pouco de Carnaval. Afinal, ele está aí todo ano. Quem cresceu em lar religioso, seja evangélico, católico ou espírita vai entender bem quando eu digo que cresci com muito preconceito em relação à data.

Quando era mais jovem minha mente era povoada com as imagens dos espíritos do umbral tocando o terror em torno das emanações vibracionais de álcool, drogas e sexo desregrado, e então fazia de tudo para passar longe da folia. Aos treze anos me tornei evangelizadora infantil e uma das primeiras aulas que preparei foi sobre o carnaval – Ensinando que é a festa do “Carne nada Vale.” Mas os anos passaram, o senso critico vem só com o tempo e com a experiência. Hoje posse dizer que crescer com preconceitos enraizados nos peito é muito ruim.

Ser escrita me trouxe muitas coisas boas, mas ao tornar-me adulta comecei a questionar muitas das coisas que li na infância e adolescência e que tomava como verdade. Não renego o espiritismo, ao contrário, sinto hoje que acredito mais na existência da espiritualidade que quando era mais jovem, mas já não tenho a certeza de que a literatura escrita seja detentora de todas as verdades, até porque tudo que é psicografado passa por mãos humanas, por conceitos materiais… É adaptado a nossa capacidade atual de compreenção.

Há nas casas espíritas um pouco do velho ranço das religiões tradicionais, o ranço de educar com uma dose de medo. Somos ensinados a ter medo do umbral, dos espíritos obsessores que são inevitavelmente atraídos quando se ingere álcool, ou quando se faz sexo sem compromisso – mas isso não é mesma coisa de ameaçar os fieis das religiões tradicionais com o fogo do inferno.

Dizer que o carnaval só tem energias ruins não afasta as pessoas de atitudes negativas. O fato é que nosso muito é muito mais complexo que as velhas noções maniqueístas de bem e mal. No carnaval é violência, há drogas e há sexo de todas as modalidades licitas e ilícitas, é um fato, mas nem todos que saem as ruas para pular carnaval estão contribuindo para o acumulo de energias negativas.

Do mesmo modo como há pessoas que usam o carnaval como desculpa para todos os tipos de excessos, há pessoas que gostam apenas de se fantasiar e brincar. Festas não são o ponto alto da perdição das almas.  Ao contrário do que nos dizem, é possível ir a uma festa de rua e se divertir de forma saudável sem arrastar consigo um carma negro. É possível ingerir álcool sem estar coberto de espíritos vampiros sugando sua energia. É possível sim fazer sexo sem estar casada e não ser uma puta, ou estar em uma orgia (material ou espiritual).

O que acontece é que nos focamos muito na literatura de fenômenos e nos esquecemos da lei de causa e efeito. “O que é isto?” “O que Significa?” Significa que somos livres para fazer qualquer coisa, pensar e desejar qualquer coisa, mas que tudo terá consequências proporcionais. Se eu vou para uma festa seja de salão ou de rua com meus amigos e me divirto dentro do espírito de respeito e solidariedade, se meus pensamentos não são danosos, se minhas atitudes não são de desrespeito nem comigo nem com os meus semelhantes que energia estará atraindo para mim? Não seria uma boa energia de união fraterna?

O problema não está em festar, beber ou ir para um bloco de rua ou correr atrás do trio elétrico. O problema é quando a pessoa sai de casa pensando em beber mais que o corpo aguenta e usar isso como desculpa para fazer coisas que não faz normalmente. E isso vale para homens e mulheres. O sexo no carnaval é ruim quando se sai de casa pensando que o corpo é um brinquedo e que não há nada de errado em forçar outra pessoa a fazer o que não quer. Homens que saem de casa pensando em “Traçar as bêbadas” não estão sendo obsediados porque vão pular carnaval, são canalhas que já trazem suas más companhias espirituais.

Nossa atitude define o tipo de carnaval que temos se será uma festa fraterna na qual conheceremos pessoas novas, na qual iniciamos novos relacionamentos ou mesmo exorcizamos um pouco do estresse ou se será uma mancha Karmica em nossas vidas.

O mesmo se aplica ao consumo de álcool. As bebidas alcoólicas foram o primeiro medicamento conhecido pela humanidade, serviu para desinfetar feridas, aplacar a hipotermia, relaxante muscular, sedativo para cirurgias e sedativo emocional, com tantas utilidades o mal não está nele, mas no uso que fazemos dele. O álcool com moderação não é nosso inimigo, nem atrai o “mal”, mas seu uso indiscriminado desafiando os limites do corpo (ficar para lá de tandera de tão bêbado) e a utilização de seus efeitos como desculpa (esfarrapada para atitudes eticamente reprováveis – estuprar, matar, ofender deliberadamente o semelhante) isso sim é um dos grandes males, não só do carnaval, mas de qualquer evento grande ou pequeno. São estas atitudes mais que o álcool em si que atraem as más companhias matérias e espirituais.

No entanto por conta das nossas religiões ficamos demonizando a data, a festa e nos esquecemos que o verdadeiro veneno está nas atitudes. Neste carnaval não desejo que as pessoas se escondam em casa, que reneguem a alegria, desejo que sejamos menos hipócritas e que o sexo não seja o objetivo dos homens que saem de casa fantasiados ou não, que o álcool não seja desculpa para nenhum homem ou mulher agir de forma cretina consigo mesmo nem com os outros.

O preconceito nos impede de ver que algumas atitudes reproduzidas no carnaval acontecem o ano inteiro. Mas, hipocritamente nos lembramos que tais atitudes são erradas apenas no carnaval. O cara não vira pedófilo, estuprador, alcoólatra, drogado no carnaval – mas quem tem essa índole usa a nossa “cultura de hipocrisia” para se justificar nesta época do ano. Não é demonizando as festas que faremos a diferença no mundo, é sendo pessoas melhores e mais fraternas, é trocando o abuso pela comemoração solidária e fraterna.

Somos seres espirituais vivendo em um mundo material, de modo que os prazeres materiais não são ilícitos, ilícito é transformar algo bom em um prazer deturpado que ignora o respeito ao próximo.

Acredito que as grandes festas têm sua finalidade social, emocional e mesmo política servindo como uma espécie de termômetro do caráter da sociedade, caso contrário já teriam se perdido no fluxo do tempo. Muitas tradições brutas já foram derrubadas à medida que evoluímos como pessoas e como sociedades, a vigília das mascaras de Veneza em que rapazes invadiam casas para estuprar as donzelas indefesas já não existe mais, a tradição de se agredir porta bandeiras rivais com navalhas – que deu origem ao mestre sala que servia para proteger a bandeira – durante os confrontos de rua também não existem mais, assim pouco a pouco vamos nos tornando melhores e menos embrutecidos.

Assim com os costumes a cima desapareceram espero que desapareça a ideia de que a mulher que está na festa está se oferecendo e está suscetível ao que vier. É tão bom estar com os amigos, sair da rotina, brincar de ser outro alguém pelo menos um dia no ano, viajar, conhecer pessoas novas. E devemos caminhar mais e mais neste sentido, mas isto só será possível se parar de tapar o sol com a peneira, ou seja, parar de demonizar o carnaval e começar a responsabilizar quem age de má fé.

 

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