O quanto somos capazes de olhar para nós mesmos ???

Acho que esta é a pergunta mais difícil da nossa existência. Lembro que quando criança ouvi que na filosofia budista acredita-se que temos quatro faces – a que vemos, a que mostramos para os outros, a que os outros veem e a nossa verdadeira face. Não sei se este preceito de fato faz parte da filosofia budista, mas eu o trouxe para a minha vida como uma reflexão constante sobre mim mesma.

Hoje, balzaquiana que sou, ainda me olho no espelho e tenho a certeza de que n ao me vejo claramente. Há tanto que não sabemos sobre nós mesmos, nosso lugar no mundo. Sempre nos achamos grandes ou pequenos demais do que somos de fato. Nos achamos mais bonitos ou mais feios do que somos, nos achamos mais inteligentes e espertos do que somos ou subestimamos nosso potencial. A justa medida é algo que coube a poucos história da humanidade.

Nosso espelho não é um juiz imparcial. Ele é o que os olhos querem ver, e isso aparece muito claramente hoje. 28/04. Hoje tenho um nome para mim. Hipócrita. Hoje eu que defendo a paralisação, estou trabalhando.  Eu me vi sem escolha. E ainda sim critico os meus colegas que não se importam ou criticam o ato de hoje. Que veem na paralisação esquerdista.

Vivemos uma sociedade em que esquerda e direita são palavrões e que neo liberalismo e social democracia são algo até pior. Não devemos ter medo de nos posicionar entre esquerda, direita ou centro. Nosso erro maior é justamente esse medo de tomar partido e fazer “inimizades”.

Somos uma nação cheia de pessoas que não tem consciência de que não se vêem claramente. Tivemos uma década e meia de direitos e prosperidade e isso nos fez achar que somos uma sociedade divida em classes A ,B e C. Nos deu a ilusão de que temos uma classe média. Passamos a criticar que não temos domésticas/escravas a nossa disposição para arrumar a cama que deixamos bagunçada, lavar nosso banheiro e limpar a bosta da bunda de nossos filhos.

Mas a verdade é que não temos uma verdadeira classe Média, temos uma classe de muito ricos, tão ricos que parecem personagens de um filme de conspiração do tipo Iluminato kkkk – e temos uma classe trabalhadora composta de pequenos e médios empresários, servidores concursados (que não recebem super salários como os juízes, estes estão no primeiro grupo) assalariados com e sem carteira assinada, autônomos e temporários.

Acontecesse que a classe trabalhadora composta dos pequenos empresários e concursados parece pensar estar imune as mudanças que vem sendo impostas a nos nos últimos 24 meses. Eles pensam compor uma classe média que continuará indo para Miami fazer compras, e que poderão preocupar-se com o próximo lançamento de Smartphones para si e seus filhos, mas a verdade é que muitos serão jogados de volta na linha do trabalho de subsistência- trabalhando para viver e não para ter qualidade de vida. Eles não veem quando dizemos que todo trabalho deve ser respeitado e valorizado que não dá para “ter uma doméstica de estimação dando apenas casa e comida como ocorria nos anos 80 e 90” e ter uma sociedade justa.

Quem está indo as ruas não está defendendo PT – fora a Cut que ama o PT – mas defendendo o direito a qualidade de vida que tivemos nos últimos 15 anos. O direito de trabalhar 6 dias por semana e usufruir pelo menos um com a família, o direito de ir para casa no fim do expediente e ter tempo para si mesmo ao invés de desmaiar de exaustão e o direito de não acordar no meio da noite preocupado porque o salário não vai dar nem para comprar macarrão depois do meio do mês.

Somos uma imensa maioria de pobres com complexo de ricos. Somos crianças que estava começando a querer pensar por si mesmas e por isso assustamos muita gente, e agora estão tirando de nós tudo que nos dava autonomia para ter pensamento critico, elaborando leis que nos farão burros de carga porque quem trabalha 12 horas por dia não tem tempo de se rebelar. Quem recebe uma miséria tem tanto medo de perder o pouco que tem que não se revolta e nem se rebela. Sou um bom exemplo disso. Estou lindamente sentada na minha cadeira, olhando a vida passar lá fora, desejando estar lá fora gritando a plenos pulmões que não concordo com o modo como as reformas estão sendo conduzidas.

Precisamos sim de reforma trabalhista, e precisamos sim discutir a previdência, mas não nunca, jamais  desta maneira, explorando a massa e aliviando para os algozes. São temas que deviam ir a referendo, com todos os dados abertos ao publico.

Não somos moralmente evoluídos para regras que podem ser burladas para da poder a apenas um lado da equação. Porque se for assim estamos validado uma nova modalidade de escravagismo, cuja violência física não é direta, mas indireta. Em lugar da brutalidade do Pelourinho e do Tronco temos o assédio moral, temos a perseguição dentro da empresa, temos a falta de garantias quanto ao salario, férias e licenças o que nos faz depender da “bondade do empregador” nos “acordos” que quase sempre serão unilaterais. Não serão apenas o negros a sofrer, mas todos nós, sem a opção de nos refugiar em quilombos.

A ausência de violência física é o mais cruel dos truques das nossas oligarquias dominantes. A mídia valida seus atos, e a força policial coíbe os atos de protesto. Criamos abismos que a chamada Meritocracia nunca irá transpor.

Eu acredito sim em meritocracia, acredito muito, mas ela precisa ser validade por medidas que diminuam as desigualdades e permitam que as pessoas tenham oportunidades. Não adianta pregar meritocracia se o filho da empregada negra não puder de uma escola publica de qualidade que o permita competir por vagas na universidade. Se não houver hospitais públicos com médicos e equipamentos para absorver quem não pode pagar o privado.

Meritocracia é valido quando o básico está assegurado para todos independente da origem. Se todos tem o básico cada um que busque seu crescimento. As reformas trabalhistas que estamos vendo impedirá a geração atual e a próxima de ter o básico, deixando os cargos de nível superior para quem não tem que trabalhar 12 horas por dia para comer e que tem condições de pagar escola e universidade.

Não se iluda achando que existe universidade GRATIS no Brasil, só muda o tipo de pagamento. A privada come seu salário, um braço e uma perna para você ou seu filho se formar, a publica é paga pelos nossos impostos e exige muiito tempo livre. Quando cursei a UFG costumávamos dizer que a Universidade Pública não gosta do aluno que trabalha, poque ele não tem tempo de ficar por conta de todos os eventos e trabalhos da universidade. Dizíamos que os cursos gostavam dos filhos de papai que não precisavam preocupar em pegar o ônibus lotado e nem contavam moedas para comprar as xerox, esses podiam passar o dia na biblioteca ou dedicar-se aos projetos de extensão.

Quem não está nas ruas hoje ou trabalha para sobreviver com o minimo possível e tem medo de perder esse minimo,  é hipócrita como eu, ou está tão cego na ilusão de que pertence a classe média e que vai passar ileso por estas reformas. Seja como for quem está com a bunda na cadeira (como eu) está contribuindo para a exploração de si mesmo e do seu semelhante. Está compactuando o fato de nossos legisladores nos verem como animais de carga com a unica utilidade de aumentar seus lucros legítimos (nas empreses ) e ilegítimos (caixas 2 propinas, extorsões. )

Hoje, diante deste quadro, só peço algo dificílimo – Ame ao teu próximo como a ti mesmo.

Amando a nós mesmos em primeiro lugar e tomando como medida o que nos faria bem somos capazes de nos colocar no lugar do outro e por tanto não desejar mal nem a ele e nem a nós mesmos.

Ame ao próximo e não aceite que a mudança das leis nos torne menos que humanos, não faça como Temer e tantos outros por trás dele, não veja nossos semelhantes como bestas de carga.

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