Quando paro na minha linda casinha, vendo tv por assinatura me  dei conta conta que o que mais assisto são enlatados “Norte Americanos”. Não tenho saco para a tv nacional, pela absoluta falta de identidade. Não aguento mais as novelas que são sempre iguais, mesmo enredo, mesma estrutura, mesmo heróis machistas e mocinhas aguadas que choram, choram e choram para depois tudo perdoar e ficar com seu “macho alfa” afinal nada foi culpa dele, foi culpa dos “vilões” que seduziram, enganaram e fizeram trair.

Gosto de diversos enlatados americanos por terem mais história, personagens mais densos, por discutir politica (claro a politica deles, do ponto de vista deles – grandes heróis do mundo capitalista) Não estou comprando sua ideologia, mas observo os valores com relação ao universo familiar, consumo e qualidade de vida.

Estrangeiros e brasileiros tem noções diferentes do que seja família. Enquanto para muitas culturas o dever com os filhos acaba com a maior idade e para o americano em especial a velhice é solitária, pais são um incomodo para filhos adultos, enquanto nos nossos núcleos familiares tentamos pelo menos não pensar assim de quem nos criou. (apesar de ter muito brasileiro que tem mais frieza que o europeu e/ou americano com seus idosos).

Agora sobre qualidade de vida. Ah, esse tópico é o que me interessa. Nos filmes e séries estrangeiros a maior parte da vida das personagens ocorre no trabalho. Somos um mundo de trabalhadores, seja lá na terra dos heróis que usam cuecas por cima das calças ou aqui. No mundo uma minoria realmente muito pequena que realmente é dona nos meios de produção (fazendas, grandes fábricas, empresas transnacionais). Então nossa vida se passa em grande parte no local em que vendemos nossa força de trabalho. O que mais muda é a qualidade das condições da venda dessa venda.

No Brasil somos bombardeados por uma industria áudio visual baseada em uma relação de trabalhista em que as pessoas são menos submissas as condições de trabalho. A relação de trabalho que nos mostra não é regulada pelo estado como a nossa e se aproxima (a grosso modo) das reformas que tentam implementar. No entanto os trabalhadores são mais capazes de se negar a cumprir condições desumanas de trabalho, tem mais consciência de que qualidade de vida não é um bem negociável e possuem sindicados que são mais ativos e fortes.

Nossa realidade é bem distante da ficção utópica apresentada.

Nós estamos divididos e fragmentados. Ou somos pobres demais e precisamos desesperadamente de trabalhar a ponto de evitar questionar as injustiças por medo de morrer de fome, ou somos -pensamos que somos-  “classe média” e morremos de medo de nos denominarmos trabalhadores. Fomos adestrados pelas novelas a pensar que trabalhar e coisa de pobre/plebeu. E todos queremos ser nobres / burgueses/ aristocratas.

Queremos a vida de mentira das celebridades. Queremos o ócio como se a vida acontecesse nas horas vagas.

As séries enlatadas americanas tem em foco o mundo do trabalho porque em sociedades economicamente amadurecidas  as pessoas tem consciência de que se não são donos dos meios de produção elas são trabalhadores sejam classe média ou pobres, e que grande parde de suas vidas se passa no ambiente de trabalho. Por tanto condições dignas de trabalho são fundamentais. bem como salário digno e tempo para o lazer.

Quem trabalha oito horas diárias tem quanto tempo para o lazer? Que horas lê um livro? Quando vai a um parte? Ao cinema? Ao teatro? Ao salão? Nossa jornada de trabalho nos espreme a ponto de não sobrar tempo para o lazer, nossos ambientes de trabalho não incorporam a noção de que qualidade de vida aumenta a produtividade. Assim sendo nossa sociedade fomenta um novo tipo de escravidão, uma sem correntes ou chibata, mas tão cruel quanto. Viemos a margem da qualidade de vida dentro e fora do trabalho e a prova disso é a nossa teledramaturgia que tem medo de tratar os ambientes de trabalho da classe média de modo que tal classe de fato de identifique, pois se a classe média descobrir que é uma classe trabalhadora e que está sendo usurpada do direito a qualidade de vida tanto quanto um caixa de supermercado ou um varredor de rua as coisas podem não ir tão bem para a nossa estrutura de poder que tenta nos impor reformas imorais na previdência e nas leis trabalhistas.

Se o médico, o advogado, o engenheiro e outras “profissões nobres” descobrirem que apesar de seus bons salários ainda são trabalhadores o país começa a mudar e isso é perigoso.

Por que não temos séries médicas mostrando um plantão do SUS? Ou como funciona a policia brasileira? Amamos programas como CSI e Criminal Minds em que investigadores e laboratoristas ganham status de heróis ao desvendar crimes, sem a carga fantasiosa das cuecas por cima das calças e sem voar, mas com EXCELENTES CONDIÇÕES DE TRABALHO.  Mas isso é o mundo ficcional de lá, e no nosso? Onde está a coragem de retratar a vida e dramas dos nossos policiais e peritos? Onde está a coragem de colocar no mundo ficcional os dilemas da nossa sociedade?

Muito mais fácil criar um mundo de Helenas com romances batidos do que discutir de verdade o momento em que vivemos. Os folhetins da globo são exatamente isso, folhetins ultrapassados que tentam nos ancorar em valores patriarcais muitas vezes misóginos, em valores econômicos oligárquicos e conformistas, em uma total aversão a noção de somos trabalhadores ganhemos um salário minimo ou quinze mil reais por mês.

Nossa teledramaturgia nos marca com valores que segregam mais do que agregam. Que nos dividem em classes sem que perlaboramos o quando essas classes são inverdades. Vivemos o mito de que o Brasil tem uma classe média Zé Mayer e uma classe pobre Regina Casé, que Big Brother tem alguma relevância na observação do comportamento humano, e que os jornais são imparciais.

Imparcialidade é um mito. NÃO EXISTE BLOG, REVISTA, JORNAL IMPARCIAL. Todos estamos expressando nossa opinião, seja direta ou indiretamente. Todos temos nossa ideologia e esperamos que quem nos lê/assiste seja convencido por ela. Então JORNAL NACIONAL, JORNAL DA GLOBO, CNN, GLOBO NEWS, nenhum deles e imparcial. Assim como ISTO É, VEJA, CARTA CAPITAL também não são imparciais, elas visão o leitor que tenha sua visão de mundo bem como convencer novos leitores a pensar como os editores de cada revista.

Mesmo eu, estou tentando de convencer de algo. Estou tentando te convencer de que precismos ser pessoas melhores e lutar para melhorar o mundo, não apenas para nós mesmos, mas para todas as pessoas. Que a meritocracia no mundo de hoje é um mito, porque não temos oportunidades iguais. Não existimos como núcleo rico/classe média das novelas, somos pessoas reais que vivem no mundo do trabalho. Um mundo ameaçado por reformas que favorecem a exploração de cada um de nós até o limite de nossa sobrevivência, limite esse que vem sendo testado ano após ano por uma estrutura socioeconômica baseada na corrupção e troca de favores.

Estou tentando de convencer que solidariedade e amor ao próximo é não aceitar que nenhuma classe trabalhadora seja esmagada em nome dessa ficção em que vivemos na qual a classe média finge que não é trabalhadora e pensa que é elite.

Elite são as pessoas sem rosto que não aparecem nas mídias, mas que controlam nossa politica e economia bancando os políticos de direita e esquerda e depois cobrando por isso voto a voto nas assembleias, senado e congresso.

A Elite de verdade não tem nome – mas está em marcas por toda a nossa vida – é dona dos meios de produção estando no tecido de nossas roupas, no sabonete do banheiro, no tipo de carro que temos, ela é a mão invisível que inspira os filmes de teoria da conspiração.

Nós Classe média, queremos ser eles, mas NÃO SOMOS e estamos sujeitos a todas as crueldades inseridas entre as boas ideias da reforma trabalhista e da reforma previdenciária.

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