Mais do mesmo – Ainda falando de violência contra a mulher

Bom dia!

Eu não gostaria de falar de violência. Sério, preferia falar de ficção, de coisas amenas, de futilidades … mas não me parece possível quando a violência permeia tantos aspectos de nossas vidas que chegamos a achar normal.

A verdade é que tenho pensado muito sobre isso – como sempre digo não me considero feminista – não gosto de rótulos, mas respeito e admiro a luta que quem faz da busca por igualdade e respeito seu objetivo de vida.

Não sendo feminista ainda sou mulher, posso não ter o engajamento para levantar uma bandeira, mas sou qualificada para ficar triste e indignada quando vejo como a sociedade conduz temas como estupro e violência contra a mulher.

Tenho acompanhado o caso da garota que foi estuprada – digo estuprada sim independente do modo como tentem desqualificar o caso, independente dela ter dito sim foi estupro pelo simples fato dela estar drogada.

O que me choca é que seres humanos (não digo apenas homens com o tal pênis no meio das pernas, mas seres humanos no sentido amplo do termo) achem que outro ser humano drogado pode se considerado consciente de suas ações, que achem que sexo desta forma possa proporcionar algum tipo de satisfação.

Quando eu penso em sexo eu penso em respeito mútuo, afinidade, penso em consentimento e prazer mútuo. Não consigo associar sexo a violência como forma de prazer físico e/ou psicológico. E por isso sempre que vejo a forma como o caso tem repercutido o sentimento que me toma não é revolta, mas uma profunda tristeza.

Tristeza por nós enquanto sociedade, e enquanto nação. Como espirita kardecista fui condicionada a acreditar que tudo no universo está em constante evolução, incluindo nós seres humanos e nossas sociedades, e não apenas em evolução intelectual, mas em evolução moral/espiritual. Somos levados a ver este mundo como um mundo de provas e expiações, mas em transição para um mundo regenerador. No entanto o  modo a violência está normalizada e institucionalizada me faz repensar este conceito.

Como podemos ser melhores que os fundamentalistas islâmicos (e terroristas como o grupo ISIS), se achamos normal que uma mulher drogada seja objeto de 30 homens. Independente que ela tenha – neste estado dito sim – como pode um ser humano achar que era lícito usar o corpo dela como mero objeto de prazer. Como podem outros tantos seres humanos verem este tipo de animalidade e dizer que “está tudo bem por causa do passado dela” ???????????

O modo como essa garota está sendo tratada é apenas  a ponta desse iceberg. È o ápice de uma ideologia em que não respeitamos nossos semelhantes, em especial se forem mulheres. Não somos tratadas como cidadãs de segunda classe, mas como pessoas de segunda classe. Sem direito a existir por nós mesmas, sem obrigadas a existir em função dos desejos e necessidades de outro – pai, marido, filho, namorado.

Sendo solteiras não temos direito a dizer não em uma festa, show ou boate, porque presume-se que homens podem sair com os amigos sem qualquer objetivo extra, mas mulheres não. O fato de sairmos à noite parece nos colocar obrigatoriamente a disposição como se fôssemos objetos a espera de ser reivindicados e não pessoas.

Onde está a evolução da sociedade nisto? Será que somos melhores que as pessoas da idade média quando mulheres eram queimadas como bruxas apenas por serem mulheres? Temos mais tecnologia, grandes avanços científicos, mas continuamos tão brutos quanto o homem medieval que tratava as filhas irmãs e esposa como objetos, mercadorias a serem trocadas ou descartadas e não como criaturas tão humanas, dotadas de intelecto, sentimentos e desejos como eles próprios.

Homens e mulheres na nossa sociedade propagam a ideia de que uma vitima de violência sexual é sempre a culpada. Busca-se os antecedentes da vítima apenas para desacreditá-la enquanto os agressores ficam livres para repetir e vão repetir o ato. Não tenham dúvidas disso.

Quando vejo os rumos da nossa sociedade – um misteriosos regidos apenas por homens, uma ideologia que barra a representatividade feminina, o avanço da popularidade de homens como Bolsonaro que fazem apologia (abertamente) ao estupro e a misoginia eu acho que é mais fácil de fato não por filhos neste mundo. Apesar de toda a ideologia espirita sobre evolução, resgate das faltas de vidas anteriores é difícil acreditar que o ser humano está de fato tornando-se melhor quando achamos normal que um grupo de pessoas use outro individuo como se fosse um mero objeto e quando a sociedade aplaude isso.

Estupro não é só sobre os direitos das mulheres, é sobre o caráter humano. Sobre respeitar o semelhante, ou se afirmar sobre ele. Uma pessoa que precisa dominar o outro para satisfazer a si mesma ainda está presa à barbárie, ainda é uma alma embrutecida escondido sob o verniz da sociedade. É o tipo de coisa que se esperaria dos escravocratas da época do império quando o Brasil era resumidamente escravagista e pessoas eram posses tanto quanto cavalos e carroças, sujeitos aos maus tratos de seus senhores apenas por um prazer cruel e bárbaro.

Estupro está não na afirmação da masculinidade, porque um homem seguro de si não precisa forçar uma mulher, ele conquista. A ideia de ter prazer no sofrimento alheio é muito mais prova de fraqueza, de necessidade de sentir-se mais do que realmente é, é prova de deturpação de caráter. Um homem que estupra é um homem capaz de torturar qualquer um (homem, mulher ou criança) que ele julgue mais fraco, ou de condição inferior.

O fato de praticar um estupro coletivo implica no fato de juntos estes indivíduos julgarem-se superiores que as leis que devem reger a sociedade, julgarem-se juntos como melhores que qualquer noção de respeito ao próximo visto que em grupo tem força para fazer o que não seriam capazes individualmente. Pense que outros crimes eles podem ainda praticar juntos, ao ter a certeza da impunidade? E o modo como permitimos que saiam impunes valida total e completamente estas premissas.

Mais chocante é que estamos ensinando aos nossos jovens o seguinte.

  1. Que sexo com uma mulher que esteja dopada não é estupro.
  2. Que a vítima é sempre culpada. (sempre haverá uma justificativa para o comportamento animalesco do homem – pode ser a roupa que ela estava usando, o fato de ter passado por tal lugar tal hora, ter nascido…)
  3. Não se espera que homens refreiem seus desejos e instintos.
  4. Mulheres são como objetos, você pode possuir, abusar, ferir e até jogar fora para pegar outro modelo ou um modelo mais novo.

E diante destas ideias queremos uma sociedade mais honesta e menos violenta? Pouco provável que se consiga acabar com corrupção em um país em que não se ensina que respeito não é seletivo, ele deve abranger a todos. Que regras não são para alguns cumprirem, mas sim para todos. Temos que ensinar que é errado agredir o semelhante seja ele hetero ou homossexual, homem ou mulher, branco ou negro,  porque são todos seres humanos na mesma medida. E que beijar a força, passar a mão, encochar no coletivo, são agressões tanto quanto um tapa, um soco, um murro, um chute… e até pior que isso.

Devemos parar de ensinar que uma mulher não deve reagir a uma agressão. Devemos ensinar que uma menina deve se defender quando for tocada contra a vontade, que pode gritar e se defender sim. Que não é culpa dela, que porco, nojento, criminoso é agressor e não a vitima.

Com todos estes comportamentos que nos objetificam e nos desqualificam como seres humanos por sermos mulheres e que tiram de nós o direito sobre nossos corpos sinto que não somos melhores que povos ditos primitivos, somos piores. Temos o conhecimento, mas o ignoramos, temos tecnologia e nos escondemos atrás dela para repetir os mesmo comportamentos que um homem medieval. Recitamos valores éticos e morais, nas não os aplicamos.

Iniciando a leitura de – A Gênese – Allan Kardec – PARTE III

Demorei a retornar ao assunto, mas cá estou eu com o item 60.

Por que logo este item?

Tenho visto desde a minha adolescência as pessoas buscarem a ajuda espiritual para problemas pessoas, amorosos, financeiros esperando respostas claras e imediatas. “Levante a mão quem nunca quis uma resposta mágica para solucionar aquele problema que não deixa dormir a noite? Ou saber se “carinha” volta com rabo entre as pernas e flores?”

Somos movidos por nossos desejos e angustias imediatos, e estes desejos e angustias são moldados por aquilo que consideramos mais importante. Mas não existe resposta mágica para solucionar nossos problemas individuais ou coletivos. Os espíritos nada mais são que pessoas, mas sem a carne para interagir com o mundo. Assim como há todo tipo de pessoas há todo tipo de espíritos. Alguns ainda presos a mágoas e ódios ou paixões e também há os que empenha-se em fazer o bem sendo de diferentes graus evolutivos alguns exatamente como nós e outros mais próximos da luz de cristo.

Estes espíritos “não se manifestam para libertar do estudo e das pesquisas o homem, nem para lhe transmitirem, inteiramente pronta, nenhuma ciência.”

60.  Os Espíritos não se manifestam para libertar do estudo e das pesquisas o homem, nem para lhe transmitirem, inteiramente pronta, nenhuma ciência. Com relação ao  que o homem pode achar por si mesmo, eles o deixam entregue às suas próprias forças. Isso sabemo­no hoje perfeitamente os espíritas. De há muito, a experiência há demonstrado ser errôneo atribuir­ se aos Espíritos todo o saber e toda a sabedoria e supor se que baste a quem quer que seja dirigir­ se ao  primeiro Espírito que se apresente para conhecer todas as coisas. Saídos da Humanidade, eles constituem uma de suas faces. Assim como na Terra, no plano invisível também os há superiores e vulgares; muitos, pois, que, científica e filosoficamente, sabem menos do que certos homens; eles dizem o que sabem, nem mais, nem menos. Do mesmo  modo que os homens, os Espíritos mais adiantados podem instruir­nos sobre maior  porção de coisas, dar­nos opiniões mais judiciosas, do que os atrasados. Pedir o  homem conselhos aos Espíritos não  é entrar em entendimento  com potências sobrenaturais; é tratar com seus iguais, com aqueles mesmos a quem ele se dirigiria neste mundo; a seus parentes, seus amigos, ou a indivíduos mais esclarecidos do  que ele. Disto é que importa se convençam todos e é o que ignoram os que, não  tendo estudado o Espiritismo, fazem ideia completamente falsa da natureza do  mundo dos Espíritos e das relações com o além ­túmulo.

 

O que acham a cerca do item?

Iniciando a leitura de – A Gênese – Allan Kardec – PARTE II

Normalmente sou uma leitora rápida e compulsiva, mas isto vale para textos de ficção, quando se trata de teoria ou filosofia sou uma leitora mais lenta, menos compulsiva, talvez porque o fervilhar de pensamentos seja realmente intenso e não seja fácil tirar conclusões quando filosofia e fé se encontram.

Continuo no Cap 1

59. Os grandes Espíritos encarnados são, sem contradita, individualidades poderosas, mas de ação restrita e de lenta propagação. Viesse um só dentre eles,  embora fosse Elias ou Moisés, Sócrates ou Platão, revelar, nos tempos modernos, aos homens, as condições do mundo espiritual, quem provaria a veracidade das suas asserções, nesta época de cepticismo? Não o tomariam por sonhador ou  utopista? Mesmo que fosse verdade absoluta o que dissesse, séculos se escoariam antes que as massas humanas lhe aceitassem as idéias. Deus, em sua sabedoria, não quis que assim acontecesse; quis que o ensino fosse dado pelos próprios Espíritos, não por  encarnados, a fim de que aqueles convencessem da sua existência a estes últimos e quis que isso ocorresse por toda a Terra simultaneamente, quer para que o ensino se propagasse com maior rapidez, quer para que, coincidindo em toda parte, constituísse uma prova da verdade, tendo assim cada um o meio de convencer­se a si próprio.

60. Os Espíritos não se manifestam para libertar do estudo e das pesquisas o homem, nem para lhe transmitirem, inteiramente pronta, nenhuma ciência. Com relação ao  que o homem pode achar por si mesmo, eles o deixam entregue às suas próprias forças. Isso sabem­no hoje perfeitamente os espíritas. De há muito, a experiência há demonstrado ser errôneo atribuir­se aos Espíritos todo o saber e toda a sabedoria e supor­se que baste a quem quer que seja dirigir­ se ao  primeiro Espírito que se apresente para conhecer todas as coisas. Saídos da Humanidade, eles constituem uma de suas faces. Assim como na Terra, no plano invisível também os há superiores e vulgares; muitos, pois, que, científica e filosoficamente, sabem menos do que certos homens; eles dizem o que sabem, nem mais, nem menos. Do mesmo  modo que os homens, os Espíritos mais adiantados podem instruir­nos sobre maior  porção de coisas, dar­nos opiniões mais judiciosas, do que os atrasados. Pedir o  homem conselhos aos Espíritos não  é entrar em entendimento  com potências sobrenaturais; é tratar com seus iguais, com aqueles mesmos a quem ele se dirigiria neste mundo; a seus parentes, seus amigos, ou a indivíduos mais esclarecidos do  que ele. Disto é que importa se convençam todos e é o que ignoram os que, não  tendo estudado o Espiritismo, fazem idéia completamente falsa da natureza do  mundo dos Espíritos e das relações com o além­ túmulo.

Quanto mais olho a minha volta, mas eu sinto que nós gostamos muito mais de ouvir a nossa própria voz que a voz do outro. Lembro que na faculdade li um livro chamado Auto de Fé de Elias Canetti e muito me impressionava o quanto os personagens digladiavam-se com o mundo vendo apenas o que queriam ver, e ouvindo na voz dos outros apenas o eco de si mesmos. Lembro de ter escrito uma mini monografia falando da “megalomania da personagem principal” mas revendo hoje a teoria – O livro foi baseado em Kant – Vejo que não era tão fantasioso assim e expressa bem que diz o parágrafo a cima. Gostamos tanto nossa própria voz que transformamos os cultos religiosos em ecos de nós mesmos. Muitos de nós escolhem a religião, não em busca de mudança interior, mas em busca de algo em que apoiar as próprias tendências. Homens/mulheres que não gostam de assumir a responsabilidade de seus próprios atos verão nos espíritos obsessores ou na figura do diabo a desculpa para esquivarem-se de eventuais culpas, e dirão “Ele me fez fazer isso”. Para estes homens o Cristo vivo e reencarnado poderia gritar as verdades divinas em praça pública que ouviriam apenas a parte que lhes conviesse.

Não culpo as religiões pela cegueira do homem, mas a vaidade do homem como entrave para o verdadeiro sentido das religiões.

Mesmo com o plano espiritual manifestando-se de diversas maneiras em lugares diferentes do mundo, mesmo entre os espíritas e espiritualistas é difícil haver um consenso. Isso por que a reflexão cientifica e a fé humana ainda não estão em harmonia, estão caminhando ainda. Tudo que nos é dado e mostrado está sujeito a interpretação. Como o físico que tenta decifrar a mecânica do universo nós tentamos decifrar a mecânica da vida bem vivida . Se os preceitos do Cristo são universais e sobrevivem ao tempo no cerne das religiões cristãs, a forma como escolhemos entender varia. Assim como varia o modo como escolhemos entender os fenômenos espirituais.

Nossos olhos são janelas muito diversas com muitos pontos de vista para o mesmo ponto no universo. Já estive em centros kardecistas e umbandistas e vi faces diferentes da mesma centelha divina. Nomes diferentes para os mesmos tratamentos, formas diferentes de lidar com a mesma doença da alma. Não achei um uma fosse melhor ou mas certa que a outra, como não acho que a oração evangélica seja melhor ou pior que a católica ou a espirita. É mais como se uma grande verdade estivesse bem debaixo do nosso nariz, mas por mais que forcemos a visão vislumbramos apenas uma parte. A parte que nós queremos, que cabe na nossa necessidade pessoal , e que muitas vezes não afronta os nossos defeitos mais básicos, porque quando afronta sentimo-nos incomodados e desconfortáveis por precisar mudar.

Mudar é sempre uma tarefa inglória e cheia de percalços. Por mais que eu aceite a forma como a doutrina espirita foi sintetizada, não consigo deixar o sentimento de que a verdade sobre o plano espiritual só virá no final da minha jornada, e enquanto eu viver tudo que eu tenho é a escolha, escolha de em que acreditar.

Acho que isso resume o presente do livre arbítrio. Nós, no fundo de nossos corações, independente de imposições, mesmo as mais bárbaras como as dos regimes islâmicos mais radicais, nós escolhemos acreditar o não, e acreditar não está nas palavras, e as vezes nem mesmo nas ações, mas naquela inquietações que nos perseguem nas horas silenciosas ou nas grandes decisões que nos agitam o espírito. Nestes momentos a única certeza que tenho é que a vida não começa e nem acaba nesta existência, e que toda ação produz uma reação em nós mesmos e no mundo que nos cerca. Todo o resto é escolha.

Neste sentido Platão e sua teoria da caverna nunca foram tão atuais – Vivemos no impasse sem saber que o mundo real é o da matéria ou o do espírito, qual é a ilusão e qual a existência mais plena, a que temos aqui com as limitações, dores e prazeres físicos, afetos e paixões ou a que independe do corpo que diz-se ilimitada, mas é limitada a não ter a sensações do corpo ( o que torna inconcebível para a nossa mente que reconhece o mundo por meio das sensações)

Creio eu que por concebermos o mundo por meio das sensações do corpo que crer na existência espiritual seja tão difícil para a maioria de nós.  Como conceber uma existência sem frio, sem calor, sem desejo, sem prazer sexual, sem fome se todas estas coisas nos definem? Como acreditar em um mundo invisível se nos escapa ao tato?

Iniciando a leitura de – A Gênese – Allan Kardec

Antes de tecer comentários gostaria de compartilhar o item 36 – Do capitulo caráter da revelação espirita.

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Gênesis significa origem, criação 

O item 36 me chamou a atenção por se uma afronta a todo conceito material de orgulho e derruba a falsa ideia de que um ser humano teria o direito de brutalizar ou dominar outro seja por raça, posição social ou sexo.

 

36. Com a reencarnação, desaparecem os preconceitos de raças e de castas, pois o  mesmo Espírito pode tornar a nascer rico ou pobre, capitalista ou proletário, chefe ou  subordinado, livre ou  escravo, homem ou  mulher. De todos os argumentos invocados contra a injustiça da servidão e da escravidão, contra a sujeição da mulher  à lei do mais forte, nenhum há que prime, em lógica, ao  fato material da reencarnação. Se, pois, a reencarnação funda numa lei da Natureza o princípio da fraternidade universal, também funda na mesma lei o da igualdade dos direitos sociais e, por conseguinte, o da liberdade. 

Lembro que quando eu era criança, me incomodava como uma pessoa podia ter nascido e morrido escrava ou ter sido brutalizada sem nunca ter chance de defesa – nossos livros de história estão cheios destes relatos, e assim também nossos jornais, em especial os sensacionalistas que mostram casos que nos deixam com vergonha do gênero humano.

Pensar que uma vida passada pode ter sido a causa não alivia a tristeza, e

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Pensar que o universo é vasto vivo e pulsante faz mais sentido que imaginar o vácuo frio. Um universo sem Deus seria um lugar imensamente solitário. 

pensar que o algoz pode em tempo futuro ser a vítima deixa um pífio sentimento de revanchismo. Mas pensar nisso como um ciclo em que ambas as partes podem romper os lastros do sofrimento faz pensar que talvez a humanidade possa sim chegar a ter dias menos negros.

Penso em casos como o “Estado Islâmico” e todas as suas atrocidades, e como seria injusto suas vítimas terem apenas esta existência de dor e depois nada. Ou nos algozes se esta fosse sua única existência – condenados eternamente a sofrer pelos crimes de uma vida (ideia de inferno) ou condenados ao vazio da inexistência (para quem não crê na vida após a morte). Almas criadas por um Deus perfeito e onisciente devem ter algum modo de reconciliar-se com as leis do pai, como uma criança que faz algo terrível no começo da vida, mas cresce e amadurece e torna-se melhor quando adulto por ter aprendido com o erro. Penso em todas as vidas ceifadas antes de ter qualquer chance de fazer bem ou mal por serem jovens demais, levadas por bombas, tiros, por serem molestas até o limite. Deus permitiria isso a um inocente? Um paraíso mítico repara uma existência perdida.

Aliás a ideia de paraíso me dá tédio e assemelha-se a inexistência. Para mim existir e ser produtivo de um ou outro modo, conviver, conhecer, aprender. Isso só me parece possível se estamos neste plano de existência, sujeito aos sentidos do corpo com suas benesses e tentações físicas e morais. A estrada para a fraternidade universal foi o caminho que falou mais alto ao meu coração e me fez mais sentido que outras opções de crenças, pois não sou capaz de crer na maldade como algo absoluto, e não sou capaz de aceitar que um ser humano vá sempre subjugar outro ser humano usando de desculpas como cor, sexo, classe social ou mesmo crença religiosa.

Gostaria de ver outras opiniões para que isto não se torne um monólogo.

Entrevista muito legal com o autor de – Saga dos Capelinos

Como eu disse muitas vezes, como espírita e estudiosa de literatura, nunca prentendi tratar como verdade ou não os textos da “Saga dos Capelinos”.

Se tem verdade espiritual ou não isso cabe a cada leitor decidir por si, a verdade sobre a espiritualidade só vamos alcançar no fim da nossa jornada na terra kkk.

O próprio autor dos livros os define como ficção – isso eu não sabia. – Ficção baseada em pesquisas históricas e espirituais, mas ainda ficção.

Como isso me afeta? Em nada acho. Gosto dos livros por sua qualidade, pela veracidade passada pelos personagens dentro da obra. Para mim o maior valor de um livro não é se ele expressa uma verdade objetiva, mas se ele expressa valores que nos possibilitem ser melhores e isso os livros conseguem muito bem. Cada um deles passa a ideia de que podemos nos melhorar, de que nosso mundo pode ser melhor , de que não há mal que perdure…

Nem sempre a influência espiritual em uma obra é direta – como as psicografia da vida de determinados espíritos – muitas vezes ela se dá na inspiração de valores ou mesmo na composição de personagens. Isso é menos mediunidade? Creio que não. Além do mais, convenhamos, de tantas histórias propriamente psicografadas quantas não são “contos de fadas” ditados para nos ajudar a lidar com nossos problemas mais graves (orgulho e egoísmo).

Dentro da literatura não acho que a ficção tenha menos valor que a biografia.

Vale a pena ler a entrevista de Albert Paul Dahoui : Entrevista com Albert Paul Dahoui

 

O SILMARILLION – J. R. R. TOLKIEN – Minhas reflexões

download (8)Tem alguns livros que simplesmente marcam a gente. É o caso do “SILMARILLION” a primeira vez que o li eu estava com 22 anos, foi logo depois de ler “O Senhor dos Aneis” que amo por vários motivos começando pela estrutura narrativa, construção dos personagens… bom este post não é sobre ele. kkkkk

O SILMARILLION me marcou primeiro por sua estrutura que embora seja narrativa traz uma musicalidade intrínseca. É meio como mergulhar nas lendas primordiais. Vejo a narrativa como algo próximo a estrutura oral das lendas da velha Mesopotâmia. Ao menos me trouxe o mesmo sentimento nostálgico de ler a epopéia de Gilgamesh. Em segundo me marcou profundamente a imagem que ele pinta da criação.

Havia Eru, o Único, que em Arda é chamado de Ilúvatar. Ele criou primeiro os Ainur, os
Sagrados, gerados por seu pensamento, e eles lhe faziam companhia antes que tudo o mais
fosse criado.

Este início nos lembra a ganeses bíblica, mas vai um pouco mais além, porque não começa pela criação da matéria, ou da terra. Começa na criação do espírito antes do universo.

Lembra muito o inicio do Livro dos espíritos – que diz que Deus é o Criador incriado do universo, causa primária de todas as coisas. Assim o SILMARILLION traduz a ideia de Deus na imagem de Eru. Este Deus não cria primeiro a Matéria, mas sim o espírito. os Anuir.

Pietro Umbaldi vai nos propor em suas obras a teoria da queda segundo a qual nós espírito no principio existimos antes do universo material, em perfeita harmonia com o criador e que por alguma hibris deixamos de pertencer a harmonia cósmica e passamos a nos pender a corpos materiais.

Amo mitologia desde os meus nove anos de idade – quando comecei a procurar por mitos gregos, mas foi só na adolescência que conhecia a Teogonia de Hesíodo e seu mito da criação.

Sim bem primeiro nasceu Caos, depois também
Terra de amplo seio, de todos sede irresvalável sempre,
dos imortais que têm a cabeça do Olimpo nevado,
e Tártaro nevoento no fundo do chão de amplas vias,
e Eros: o mais belo entre Deuses imortais,
solta-membros, dos Deuses todos e dos homens todos
ele doma no peito o espírito e a prudente vontade.
Do Caos Érebos e Noite negra nasceram.
Da Noite aliás Éter e Dia nasceram,
gerou-os fecundada unida a Érebos em amor.

 

E quanto mais eu pesquisava, mais fascina ficava com a riqueza das lendas e mais observava que quase todas as gêneses começam pela criação da matéria. Mesmo que haja uma divindade primordial logo origina-se o casal primordial – seja dia e noite, luz e sombra…

A ENUMA ELISH começa com:

Quando não havia firmamento, nem terra, alturas, profundezas ou sequer nomes, images (4)
Quando o Apsu estava sozinho,
Ele, as águas doces, o iniciador da criação, e Tiamat, as águas salgadas, e útero do universo, quando não existiam os deuses….

Quando as águas doces e as salgadas estavam juntas, misturadas,
Os juncos não estavam trançados, ou galhos sujavam as águas,
quando os deuses não tinham nome, natureza ou futuro, então a partir de Apsu e Tiamat, nas águas dele e dela, foram criados os deuses, e para dentro das águas precipitou-se a terra 

Já tratando dos primórdios do mundo material.

Seja o Caos, Apso ou qualquer outra divindade ela cria. Dá origem sem nada a ter originado. Assim é o Deus cristão e Eru do SILMARILLION. Criador incriado, causa primária que gera em pensamento.

Os Ainur são imateriais, perfeitos como o pensamento do criador.

E ele lhes falou, propondo-lhes temas musicais; e eles cantaram em sua presença,
e ele se alegrou. Entretanto, durante muito tempo, eles cantaram cada um sozinho ou apenas
alguns juntos, enquanto os outros escutavam, pois cada um compreendia apenas aquela parte da mente de Ilúvatar da qual havia brotado e evoluía devagar na compreensão de seus irmãos. Não obstante, de tanto escutar, chegaram a uma compreensão mais profunda, tornando-se mais consonantes e harmoniosos.

Sobre a queda.

Na mitologia judaico cristã temos a história dos anjos, criados por Deus antes dos Homens e que estes anjos, por ciumes, orgulho e vaidade guerrearam entre si havendo uma divisão entre os anjos celestes e os anjos caídos.

Bem – entres os Ainur também temos uma queda. Melkor semelhante a Lúcifer:

A Melkor, entre os Ainur, haviam sido concedidos os maiores dons de poder e
conhecimento, e ele ainda tinha um quinhão de todos os dons de seus irmãos.

E como Lúcifer ele não estava satisfeito

Muitas vezes, Melkor penetrara sozinho nos espaços vazios em busca da Chama Imperecível, pois ardia nele o desejo de dar Existência a coisas por si mesmo; e a seus olhos Ilúvatar não dava atenção ao Vazio, ao passo que Melkor se impacientava com o vazio. E, no entanto ele não encontrou o Fogo, pois este está com Ilúvatar. Estando sozinho, porém, começara a conceber pensamentos próprios, diferentes daqueles de seus irmãos.

Alguns desses pensamentos ele agora entrelaçava em sua música, e logo a dissonância surgiu ao seu redor. Muitos dos que cantavam próximo perderam o ânimo, seu pensamento foi perturbado e sua música hesitou; mas alguns começaram a afinar sua música a de Melkor, em vez de manter a fidelidade ao pensamento que haviam tido no início. Espalhou-se então cada vez mais a dissonância de Melkor, e as melodias que haviam sido ouvidas antes soçobraram num mar de sons turbulentos. Ilúvatar, entretanto, escutava sentado até lhe parecer que em volta de seu trono bramia uma tempestade violenta, como a de águas escuras que guerreiam entre si numa fúria incessante que não queria ser aplacada.

Como divindade criadoraEru, o Ilúvatar, a revolta deMelkor, e mesmo a dissonância por ele criada não eram em absoluto uma surpresa, mas parte do próprio processo de criação.

Então, falou Ilúvatar e disse: – Poderosos são os Ainur, e o mais poderoso dentre eles é Melkor; mas, para que ele saiba, e saibam todos os Ainur, que eu sou Ilúvatar, essas melodias que vocês entoaram, irei mostrá-las para que vejam o que fizeram E tu, Melkor, verás que nenhum tema pode ser tocado sem ter em mim sua fonte mais remota, nem ninguém pode alterar a música contra a minha vontade. E aquele que tentar, provará não ser senão meu instrumento na invenção de coisas ainda mais fantásticas, que ele próprio nunca imaginou.

Ao descrever os Ainur e seu poder como formas musicais deixa a leitura fluida e onirica, nos leva e este mundo fantástico onde a melodia cria formas. O duelo musical entre a rebeldia de Melkor e a criação em poucos parágrafos é intensa e furiosa. Não é como visualizar as batalhas de Senhor dos anéis, tem um sentindo mais espiritual repetindo a rebeldia de Lúcifer e ao mesmo tempo demonstrado que ela seria o mesmo que um sopro passageiro na grande criação.

Sobre a metáfora da criação:

Gênesis 1

1No princípio criou Deus o céu e a terra.

2E a terra era sem forma e vazia; e havia trevas sobre a face do abismo; e o Espírito de Deus se movia sobre a face das águas.

Melkor ressentia-se do vazio, pois o vazio também aparece na Génesis bíblica – para mim esta é uma das imagens mais bonitas do mito da criação judaco-cristão.

No SILMARILLION Eru utiliza a melodia de seus filhos Anuir para dar forma ao vazio. Para criar a matéria e o mundo material.

Entretanto, quando eles entraram no Vazio, Ilúvatar lhes disse: – Contemplem sua Música! – E lhes mostrou uma visão, dando-lhes uma imagem onde antes havia somente o som E eles viram um novo Mundo tomar-se visível aos seus olhos; e ele formava um globo no meio do Vazio, e se mantinha ali, mas não pertencia ao Vazio, e enquanto contemplavam perplexos, esse Mundo começou a desenrolar sua história, e a eles parecia que o Mundo tinha vida e crescia. E, depois que os Ainur haviam olhado por algum tempo, calados, Ilúvatar voltou a dizer: – Contemplem sua Música! Este é seu repertório. Cada um de vocês encontrará aí, em meio à imagem que lhes apresento, tudo aquilo que pode parecer que ele próprio inventou ou acrescentou. E tu, Melkor, descobrirás todos os pensamentos secretos de tua mente e perceberás que eles são apenas uma parte do todo e subordinados à sua glória.

Uma das implicações da teoria da queda seria que a criação da matéria foi consequência da hibris – da queda espiritual que é representada pelo mito de Lucifer. Em um paralelo a dissonância de Melkor é em parte responsável pela criação da matéria. Os traços que remetem a arrogância, o ciúme, a vaidade assim como o pecado teria entrado no mundo por meio do anjo caído que tentou Eva na forma de serpente.

Assim como os anjos não participaram da criação do homem, os Ainur não participaram da criação do terceiro tema:

Pois os Filhos de Ilúvatar foram concebidos somente por ele; e surgiram com o terceiro tema; eles não estavam no tema que Ilúvatar propusera no início, e nenhum dos Ainur participou de sua criação. Portanto, quando os Ainur os contemplaram, mais ainda os amaram, por serem os Filhos de Ilúvatar diferentes deles mesmos, estranhos e livres; por neles verem a mente de Ilúvatar refletida mais uma vez e aprenderem um pouco mais de sua sabedoria, a qual, não fosse por eles, teria permanecido oculta até mesmo para os Ainur.

Assim o vazio foi preenchido pela matéria e a matéria ocupada por seres materiais. Os Anuir que não se rebelaram contra o criador amaram suas criaturas, e desceram ao plano material abrindo mão de sua “potência” e trabalhando na diversidade da criação.

Ora, os Filhos de Ilúvatar são elfos e os homens, os Primogênitos e os Sucessores. E em meio a todos os esplendores do Mundo, seus vastos palácios e espaços e seus círculos de fogo, Ilúvatar escolheu um local para habitarem nas Profundezas do Tempo e no meio das estrelas incontáveis.

Os elfos estão na mitologia europeia, e a imagem dos Elfos de Tolkien é muito diversa por exemplo da imagem que aparece nos mitos Nórdicos. Na qual os Alfs ou Alfr dividem-se em duas categorias os seres luminosos quase divinos a semelhança de fadas ou ninfas e os escuros, deformados e maus.

A imagem mais popular dos Alfs ou Alfr era justamente a do diabrete que roubava crianças do berço no meio da noite, sequestrava e violava donzelas etc. A ideia dos belos e sábios elfos que deriva dos Alfs ou Alfr luminosos popularizou-se atraves da literatura de Tolkien. Até então eram mais conhecidas as lendas nas quais ele agem como demônios.

Literalmente, os elfos são gênios que, na mitologia escandinava, simboliza o ar, a terra, o fogo e água.

Na mitologia de Tolkien eles representam a longevidade e a harmonia com a natureza, não sendo desprovidos de defeitos ou paixões, mas ainda são mais sábios que raça dos homens.

images (5)Os Elfos de Tolkien tem um aspecto que os aproxima das lendas referentes a lugares míticos como Avallon ou mesmo Atlandida. Ao longo de Senhor dos anéis eles estão sempre saudosos de seu lugar de origem. Sua ilha maravilhosa da qual saíram por curiosidade e desobediência.  O saudosismo dos Elfos de Tolkien remete aos nossos mitos do paraíso perdido. Quase todos os povos tem mitos referentes a uma era de ouro deixada para trás, isto está no inconsciente coletivo de quase todas as culturas.

Mas, quando os Ainur contemplaram essa morada numa visão e viram os Filhos de Ilúvatar surgirem dentro dela, muitos dos mais poderosos dentre eles concentraram todo o seu pensamento e seu desejo nesse lugar. E, desses, Melkor era o chefe, exatamente como no início ele fora o mais poderoso dos Ainur que haviam participado da Música. E ele fingia, a princípio até para si, que desejava ir até lá e ordenar tudo pelo bem dos Filhos de Ilúvatar, controlando o turbilhão de calor e frio que o atravessava. No fundo, porém, desejava submeter à sua vontade tanto elfos quanto homens, por invejar-lhes os dons que Ilúvatar prometera conceder-lhes; e Melkor desejava ter seus próprios súditos e criados, ser chamado de Senhor e ter comando sobre a vontade de outros.
Já os outros Ainur contemplaram essa habitação instalada nos vastos espaços do Universo, que os elfos chamam de Arda, a Terra; e seus corações se alegraram com a luz, e seus olhos,
enxergando muitas cores, se encheram de contentamento; porém, o bramido do oceano lhes
trouxe muita inquietação. E observaram os ventos e o ar, e as matérias das quais Arda era feita: de ferro, pedra, prata, ouro e muitas substâncias. Mas de todas era a água a que mais enalteciam. E dizem os eldar que na água ainda vive o eco da Música dos Ainur mais do que em qualquer outra substância existente na Terra; e muitos dos Filhos de Ilúvatar escutam, ainda insaciados, as vozes do Oceano, sem contudo saber por que o fazem.

A narrativa nos leva para um tempo antes do tempo. Os Ainur viram homens elfos antes deles nascerem no mundo. Assim toda a ação se desenrola fora da matéria até que Ilúvatar os conclamou, e disse:

Conheço o desejo em suas mentes de que aquilo que viram venha na verdade a ser, não apenas no pensamento, mas como vocês são e, no entanto, diferente. Logo, eu digo: Eä! Que essas coisas Existam! E mandarei para o meio do Vazio a Chama Imperecível; e ela estará no coração do Mundo, e o Mundo Existirá; e aqueles de vocês que quiserem, poderão descer e entrar nele. – E, de repente, os Ainur viram ao longe uma luz, como se fosse uma nuvem com um coração vivo de chamas; e souberam que não era apenas uma visão, mas que Ilúvatar havia criado algo novo: Eä, o Mundo que É.

Aconteceu, assim, de entre os Ainur alguns continuarem residindo com Ilúvatar fora dos
limites do Mundo, mas outros, e entre eles muitos dos mais fortes e belos, despediram-se de
Ilúvatar e desceram para nele entrar.

images (7)Tolkien traduz lindamente a nossa ideia de paraíso pedido desde os primórdios de sua criação. O nascimento do mundo que primeiro se deu em pensamento e música torna-se matéria quando os Ainur passam a residir no mundo que veio preencher o vazio.

Mas quando os Valar entraram em Eä, a princípio ficaram assustados e desnorteados, pois era como se nada ainda estivesse feito daquilo que haviam contemplado na Visão; tudo estava a ponto de começar, ainda sem forma, e a escuridão era total. Pois a Grande Música não havia sido senão a expansão e o florescer do pensamento nas Mansões Eternas, sendo a Visão apenas um prenúncio; mas agora eles haviam entrado no início dos Tempos, e perceberam que o Mundo havia sido apenas prefigurado e prenunciado; e que eles deveriam concretizá-la. Assim teve início sua enorme labuta em espaços imensos e inexplorados, e em eras incontáveis e esquecidas, até que nas Profundezas do Tempo…

A ideia de que os Valar (Ainur que preferiram descer ao mundo) eram em principio imateriais é reforçada logo a seguir.

Então os Valar assumiram formas e matizes; e, atraídos para o Mundo pelo amor aos Filhos deIlúvatar, por quem esperavam, adotaram formas de acordo com o estilo que haviam
contemplado na Visão de Ilúvatar, menos na majestade e no esplendor. Além do mais, sua
forma deriva de seu conhecimento do Mundo visível, em vez de derivar do Mundo em si; e elesnão precisam dela, a não ser apenas como as vestes que usamos, e, no entanto podemos estar nus sem sofrer nenhuma perda de nosso ser. Portanto, os Valar podem caminhar, se quiserem, despidos; e nesse caso nem mesmo os eldar conseguem percebê-los com clareza, mesmo que estejam presentes.

Melkor, cheio de inveja e desejo de dominação a exemplo dos valar também assumiu forma visível, e diferente de seus irmãos sua forma foi escura e terrível.

Nota-se que depois da criação, com o surgiemento da matéria, mas antes da era dos homens e dos Elfos os Valar atraem companheiros para trabalhar com eles. Me pergunto quando foram criados? Seriam ecos da canção de Eru?

Isto lembra que em outros mitos da criação o mesmo ocorre. Quando Adão e Eva são expulsos do paraíso e tem sua prole fora do Eden, Cain mata o irmão e é exilado tendo se casado com uma mulher na Babilônia. De onde ela veio se Adão e Eva foram os primeiros e ela não é descendente deles ???

As lutas descritas entre os Valar e Melkor lembram muito a gêneses da ENUMA ELISH. Há a força criadora representada pelos Valar e o caos representado por Melkor.

 ENUMA ELISH

Dias seguiram outros dias, anos seguiram outros anos,
Até Anu, o firmamento vazio, herdeiro e conquistador,
primogênito de seu pai, à imagem de sua própria natureza,
fez nascer Nudimud-Ea,
intelecto, sabedoria, maiores do que o horizonte dos céus,
o mais forte dentre seus pares.

Discórdia rompeu entre os deuses, apesar de serem irmáos, e a brigar eles começaram na barriga de Tiamat, fazendo o céu tremer, e se mexer como numa dança frenética, de tal forma que Apsu não pode silenciar o clamor dos jovens deuses, fazer cessar tal mal comportamento, altaneiro e orgulhoso.

As guerras entre os Vallar e Melkor se assemelham a discordância dos deuses primordiais no ventre de Tiamat – a mãe do mundo.  Estas guerras moldam Arda assim como as lutas de Marduk no ventre de Tiamat moldam o mundo.

eles criaram terras, e Melkor as destruía; sulcavam vales, e Melkor os erguia; esculpiam montanhas, e Melkor as derrubava; abriam cavidades para os mares, e Melkor os fazia transbordar; e nada tinha paz ou se desenvolvia, pois mal os Valar começavam algum trabalho, Melkor o desfazia ou corrompia. E, no entanto, o trabalho deles não foi totalmente vão; e embora em tarefa ou em parte alguma sua vontade e determinação fossem perfeitamente cumpridas, e todas as coisas fossem em matiz e forma diferentes da intenção inicial dos Valar, apesar disso, lentamente, a Terra foi moldada e consolidada.

Já na  ENUMA ELISH

E para Tiamat, que ele conquistou, ele voltou. E o senhor permaneceu sobre as partes ocultas de Tiamat, e com o seu implacável bastão ele esmagou a sua caveira. Cortou todos os canais do sangue dela, E fez com que o vento do Norte o arrojasse para os lugares secretos. Os seus pais atentaram, e se regozijaram e ficaram alegres; Presentes e ofertas lhe foram trazidos. Então o senhor descansou, olhando intensamente para o corpo dela morto, Enquanto dividia a carne de … , e punha em prática um plano desenvolto. Ele a separou como um peixe sem escamas em duas metades; Metade dela a estabeleceu com uma coberta para o céu. Fixou uma plataforma, postou uma sentinela, E ofereceu-as para não deixarem as suas águas saírem. Passou pelos céus, examinou as suas regiões, E nas profundezas estabeleceu a morada de Nudimud. e o senhor mediu a estrutura do Abismo, Fundou E-sara, uma mansão como para ele. A mansão E-sara que ele criou como céu, Ele fez que Anu, Bel, e Ea habitassem em seus distritos ··

Assim como Marduk dividiu a terra para os deuses os Valar dividiram Arda segundo seus interesses ou melhor segundo seus elemtos, pois a exemplo dos deuses da ENUMA ELISH e mesmo dos mitos escandinavos que inspiraram os Elfos de Tolkien, os Valar representam elementos da natureza e por tal são venerados.

Ulmo é o Senhor das Águas. Ele vive só. Não mora em lugar algum por muito tempo, mas se movimenta à vontade em todas as águas profundas da Terra ou debaixo dela.

Todos os mitos da criação trazem expresso o fascínio pela água. Na ENUMA ELISH

download (10)Quando nos altos céus não era mencionado, E a terra em baixo ainda não tinha nome, E o primevo (primitivo) Apsu, que os criou, E o Caos, Tiamat, a mãe de ambos As suas águas foram misturadas umas com as outras, E nenhum campo fora formado, e não se via nenhum pântano;

(…)

Geneses bíblica 

Era a terra sem forma e vazia; trevas cobriam a face do abismo, e o Espírito de Deus se movia sobre a face das águas.

Então Deus fez o firmamento e separou as águas que ficaram abaixo do firmamento das que ficaram por cima. E assim foi.

Ulmo se assemelham muito a Posseidon, da mitologia grega, em seu aspecto terrível, e Ea em seu aspecto sublime. Tolkien cria uma divindade marítima complexa e fascinante que possui a sua maneira onipresença.

Pois tem sob seu domínio todos os mares, lagos, fontes e nascentes, e os elfos dizem que
o espírito de Ulmo corre em todas as veias do mundo Assim, mesmo nas profundezas do mar, chegam a Ulmo notícias de todas as necessidades e aflições de Arda, que de outra forma permaneceriam ocultas a Manwë.

As águas em todas as mitologias tem um significado importante, são fontes de vida. No cristianismo o batismo, o primeiro sacramento ocorre nas águas. Este elemento é o que melhor comporta a natureza ambivalente luz/sombra, paz/fúria, nascimento/morte …. O fato de ondularem e vibrarem as tonam um elemento perfeito para guardar o “canto de Iluvatar” ou o canto da criação. Quem melhor trata a profundidade do signo “agua” é Gaston Bachelard no livro “A água e os sonhos.”

Aulë representa o elemento terra, sendo o criador dos Noldor – anões. No passado a humanidade que não dispunha de conhecimentos sobre genética buscou respostas para o nanismo e a pequena estatura de alguns grupos étnicos como os pigmeus. Assim surgiram uma série de lendas sobre anões. Mas a maioria das lendas conhecidas os relacionam a fadas, duendes etc… Os anões que povoam nossa imaginação hoje são mais frutos de tolkien e seus sucessores que dos mitos mais antigos.

Interessante que a esposa de Aulë, Yavanna é uma imagem de “deusa da fertilidade” ou “deusa da primavera” semelhante a Persefone que passa parte oculta na terra – semente – e parte fora dela – frutifica. É uma imagem recorrente em divindades femininas por toda a mitologia e aparece na literatura como Helena de Troia – que é uma deusa da primavera (originalmente) Gwinever das lendas do rei Arthur. Imagem desconstruída pelos ritos judaicos-cristãos que dão primazia a natureza masculina do divino.

Algo interessante de se observar considerando a forte carga de referencias biblicas no mito da criação de SILMARILLION, pois o texto consegue aliar ideias de mitos como a Enuma Elish, mitos nordicos e escandinavos criando um universo fascinantemente poético e rico. Apesar dos traços das diversas mitologias ainda é uma mitologia completamente nova que não renega suas inspirações, mas tem força por si mesma.

Outra coisa interssante é o modo como é tratada a morada dos mortos. Nos mitos antigos o Tartaro, o submundo etc é algo horrivel de se imaginar pois é a existência fora da matéria. Os heróis mortos que aparecem na “Odisseia” quando Ulisses desce a morada dos mortos são palidos e almejam a vida. Mesmo os campos Eliseos não se comparam a viver na matéria.

Námo, não é uma copia de Hades, e sua esposa Vairë mais se assemelha as moiras que a Perséfone. Assim diferente dos mitos antigos em que o deus relacionado a terra substancia(metal, mineiro, mineração) difere do deus dos mortos. Separando a ideia de sepultamento da ideia de submundo. A morada dos mortos em SILMARILLION tem e não tem uma entrada física sendo muito mais metafísico.

A terra dos Mortos não é reservada para os Valar, nem para os Elfos propriamente, mas para as almas humanas e nisso há um certo sentimento de inveja destes paa com a ultima raça.

 

Ainda haveria muito o que dizer, mas acho que este post já ficou demasiado longo

 

A ceia secreta – Javier Sierra

Os adoradores de  Dan Brown que me perdoem, mas continuo achando “O Código Da Vinci” um livro fraco e muito parecido com “Anjos de Demônios” – quase que uma copia ampliada do primeiro que já mistura Indiana Jones com Sherlock Holmes. 

Por sua temática semelhante é inevitável a comparação entre o “O Código Da Vinci” e “A Ceia Secreta” e honestamente gostei muito mais do romance de Javier Sierra, com personagens mais consistentes, carismáticos e possíveis. Gosto muito do modo que ele lida com as mesmas teorias com as quais Dan Brown jogou. Dan Brown cativa o leitor muito mais pelo ritmo acelerado da narrativa que pelo conteúdo em si, como brincar de montar um quebra cabeças e pesa a mão quando joga um ritual “Hierogâmico” como pratica judaica.

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No romance de Javier o também temos o jogo de pistas, no entanto, sem o ritmo acelerado das perseguições ele nos permite apreciar melhor os personagens e a trama nos mostrando uma história muito mais interessante e complexa. Enquanto  Dan Brown foca sua trama na ocultação da suposta linhagem de Cristo e Maria Madalena, Javier apesar de rechear a obra de pistas que levem a linhagem de Cristo e a importância de Maria Madalena e até mesmo chegar a apontar seus descendentes não tem isso como foco principal ou força motriz, deixando a cargo do leitor uma curiosidade muito maior com relação a “mensagem” que Cristo teria deixado oculta com seus primeiros apóstolos sobre a verdadeira natureza de Deus e da Imortalidade.

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Somos fascinados pelo mistério mais que pela verdade talvez por isso especulamos tanto sobre as obras de Leonardo da Vince, mensagens secretas e teorias de conspiração. Acho que se nos dessem a verdade suprema das coisas simplesmente não saberíamos o que fazer com ela, a poríamos de lado e buscaríamos outra coisa para nos entreter.

Gostei muito, mas muito mais do livro a Ceia Secreta. O achei mais rico desde o modo como retratou Leonardo da Vince até o seu desfecho e recomendo.

Para quem gostou da “Saga dos Capelinos” de Albert Paul Dahoui há ainda um prazer maior nesta leitura, pois há muitos pontos em comum, principalmente quando comparado com os livros:

  • Moisés, O Enviado de Yahveh
  • Jesus, O Divino Discípulo – Os Anos Desconhecidos
  • Jesus, O Divino Mestre – Os Anos de Pregação e Martírio

Confesso que senti um prazer extra em encontrar semelhanças e pontos de confluência e devorei o livro em 5 horas de leitura intensa kkkk. Acho que todo mundo que tem uma queda por literatura comparada gosta de encontrar pontos de confluência entre obras distintas quando isto não compromete sua integridade e estrutura interna, ao contrário a enriquece. Acredito que seja muito difícil trabalhar com temas que estão no imaginário e no inconsciente coletivo sem cair no clichê ou sem ser um copista, afinal as teorias que inundam as duas obras em alguns pontos são tão antigas quanto a cristandade em si, e neste é neste ponto que considero as obras e Javier e Dahoui muito bem escritas e muito coerentes dentro das teorias que escolheram para nortear seus romances.

Para os espíritas, espiritualistas, católicos, e mesmo adeptos a boas teorias de conspiração, até que ponto estas teorias tocam a realidade? Honestamente eu não sei. Sempre digo que uma obra que tenha em seu cerne a possibilidade de nos ajudar a nos tornar melhores vale pelo bem que nos faz e não por sua veracidade histórica.